A contaminação do Rio Doce e o lugar da resistência na ancestralidade alimentar

por Patrícia Brito, no Buala

Secção Pólen no Ar 

Na oficina realizada na aldeia indígena de Areal e no quilombo de Degredo, no estado do Espírito Santo, Brasil, a premissa foi atuar nos aspectos relacionados aos processos alimentares tradicionais, voltados para a saúde e para a memória local.

A estratégia da política alimentar adotada, realizada através de relatos breves e encontros nessas duas comunidades, foi a de se pensar na melhoria da saúde aproximando os saberes tradicionais integrados a outras alternativas para o quotidiano.

A atividade resultou de uma ação anterior junto a um grupo grande denominado “Encontro Ancestral”, que envolvia pessoas do Brasil inteiro em prol das discussões e salvamento do Rio Doce e do mar, através dos saberes ancestrais. Nesse encontro, apareceram convidados especialmente dos municípios de Mariana, Ouro Preto, Viçosa e outras localidades atingidas pelo crime ambiental de 2015 – o rompimento da barragem do Fundão em Mariana, MG. A lama de rejeitos atravessou o estado do Espírito Santo, provocando mortes, e deixando várias comunidades originárias sem ter como realizar seus ritos e modo de vida cultural e social.

As comunidades de Areal e Degredo localizam-se no estado do Espírito Santo, junto à foz do Rio Doce. Areal fica em Regência, que pertence a Linhares, e Degredo em Pontal do Ipiranga e Cacimbas.  Para chegar ao povoado indígena de Areal, pode-se utilizar a estrada que liga Vitória a Regência, que fica a 300km da capital do Espírito Santo. A sua estrada em grande parte é de terra, com paisagem marinha e uma vegetação eminente desse rio extenso que é o Rio Doce.

A população indígena de Areal é da etnia Botocudos, reconhecida pela FUNAI – Fundação Nacional do Índio, órgão responsável pelas políticas indigenistas brasileiras, e a aldeia vive da agricultura de subsistência, e trabalho formal ou informal nas proximidades do Distrito de Regência ou na Sede do município de Linhares. A sua formação familiar vive em torno do Rio Doce, assim como do mar, e daí tiram a sua subsistência desde os tempos remotos em que os botocudos iniciaram sua vida no interior do Estado do Espirito Santo. Atualmente, mesmo sendo área contaminada pela Samarco e Vale do Rio Doce, é onde a maioria tem sua fonte de renda e de subsistência. 

Já Degredo, localidade também conhecida como Ipiranga, usava como recurso de sobrevivência o Rio Doce, e a sua comunidade, espalhada por áreas alagadas, é já auto reconhecida como comunidade tradicional quilombola, reconhecida pela Fundação Palmares, órgão responsável pelas políticas afirmativas africanas do governo Federal.  

Num contexto de desmantelamento das políticas públicas brasileiras, as organizações não governamentais têm-se preocupado cada vez mais com as discussões da permanência dos povos originários brasileiros, ou seja, a busca por estratégias políticas culturais que colaborem com a existência dos grupos fundadores das matrizes africanas e indígenas do país. Para além da preocupação da permanência, há também elementos emergenciais a serem resolvidos, como por exemplo, a saúde e a soberania alimentar dos povos. Neste contexto, o trabalho desenvolvido merece um destaque para um chamamento pessoal para se pensar o bem comum junto aos grupos sociais, pelo viés da discussão alimentar a convite das associações de moradores, que se organizaram para repensar condições de melhoria de vida, especialmente depois do crime ambiental de 2015 ocasionado pelas mineradoras Samarco e Vale do Rio Doce que gerou, além de problemas sociais, econômicos e culturais, problemas de saúde aos moradores tanto dos Estados de Minas Gerais quanto do Espírito Santo. 

Apesar de saber dos grandes danos ocorridos, vamos nos ater a falar dos problemas destas duas comunidades, Areal e Degredo, que tiveram os seus aspectos ancestrais abalados pelo crime ambiental.   

O objetivo era discutir com as comunidades a apropriação alimentar a partir da memória, auto-cuidado, e estratégias alimentares após o problema provocado pelas mineradoras, como lidar com os alimentos que ali estavam disponíveis, quais as medidas cabíveis para a retomada alimentar no campo ancestral, que em seu âmbito maior cura e fortalece a vida em confluência com o cosmos. Por se tratar de um trabalho que atua no campo da memória culinária em especial, não se pode deixar de abordar as questões relacionadas às formas de viver e de construir o ambiente, nem deixar de pautar a importância que o cosmos tem para estes grupos sociais.

No final do primeiro trabalho no Encontro Ancestral, realizado em 2018, passados três anos do crime ambiental, muitas pessoas já apresentavam adoecimento físico e emocional. O preparo de pratos para os grupos que participavam do encontro, tinha toda uma mística e luta pela cura pessoal, do rio do mar e da terra, curar era uma coisa só, não se cura um e se deixa o outro sem se curar, assim funciona o cosmos, para quem é da sabedoria ancestral. A população do entorno veio participar: pajés, mães de santo, pai de santo, xamãs, ambientalistas e cozinheiras. Foi a partir desta cozinha relacionada com a ancestralidade, que desenvolvemos o cardápio, sendo ela fonte da minha pesquisa. Dividi o trabalho com a Hanna Ayres Burnier, que tinha experiência com a cozinha indiana. Nos juntámos e pesámos cardápios para a cura, alimentos que pudessem sobretudo abrigar uma conversa amorosa e sensível para além da dieta dos dias que se seguiram. 

O retorno a Regência deu-se a convite do grupo “Aliança Rio Doce”, mobilizador de ativistas da causa ambientalista. Era importante na ocasião o aprofundamento e sensibilização do movimento pela “comida de verdade”. Além do movimento, havia também estudos que apontavam o adoecimento da população devido aos alimentos consumidos em tempos de contaminação tanto do rio como do mar. Era importante, portanto, ter uma abordagem para além da nutrição. A ideia inicial era o diálogo dos saberes ancestrais com o conhecimento acadêmico. Já tínhamos então dados plausíveis sobre o impacto do crime ambiental, a quantidade de toxicidade no organismo das pessoas, das plantas, das águas do mar e do Rio Doce, apesar de haver omissão sobre os dados, especialmente da própria mineradora.  

Portanto, os dados aqui decorrem da escuta dos povos indígenas, quilombolas e pessoas que foram morar nas proximidades. Foi a partir da vivência que soubemos o que ocorreu com os peixes dos rios e dos mares, foi também com relatos que descobrimos o que ocorreu com a plantação indígena de Areal, que se esvaiu de sua força e energia a ponto de impedir os frutos. Decorrem também da pesquisa realizada pela doutoranda na época Ana Carolina Carvalho Paulelli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, cuja tese teve como objetivo analisar a quantidade de elementos químicos e tóxicos nos organismos destas comunidades. A análise, que totalizou um número de 315 pessoas, foi realizada através de amostras de sangue, urina e cabelo, sendo a água analisada por espectrometria de massas com plasmas individualmente acoplado (ICP- MS), e revelou que as comunidades foram contaminadas por elementos altamente tóxicos encontrados na água, que geraram sintomas diversos: problemas de mal-estar generalizado, cutâneos e gastrointestinais. 

No ano do crime ambiental, em 2015, as pessoas foram impedidas de usar seus locais como meio de plantio, banho, e todo e qualquer alimento que vinha do mar ou do Rio Doce, para que a doença se controlasse minimamente, após a própria mineradora não suprir as necessidades das comunidades. Como os problemas de saúde surgiram com maior intensidade, surgiu também a necessidade de tentar outros mecanismos, como o campo ancestral para a cura. Neste sentido, não diferentemente de todas as comunidades originárias, Degredo e Areal buscam alternativas para que as comunidades permaneçam em sua vivacidade. 

Em Areal, a primeira comunidade a ser visitada, tratámos de diversos assuntos sobre os problemas alimentares, abordagem a partir do modo de preparo e de como se alimentar. A mobilização social foi corpo a corpo. Levantamentos de como se organizavam antes socialmente em torno do cotidiano alimentar e como se organizam na atualidade. Nos relatos, apesar de ter se perdido muito dos pratos tradicionais, ainda assim há uma presença forte da memória ou reinvenção dela para manter a tradição alimentar, e não somente isso, mas para trazer de forma natural o que se come, e como se come. 

As diferenças nas comunidades originárias, vêm sempre da simplicidade e da acumulação de uma cultura que se cruza indígena, quilombola e branca, esta última com traços portugueses.  As formas de assar, cozer, temperar são pura brincadeira entre mulheres e crianças. Os homens vão pouco à cozinha, segundo relatos, eles detêm o conhecimento no trato com a pesca, seja pelo Rio Doce ou pelo mar. As mulheres são grandes detentoras dos modos de se produzir e organizar a agricultura. A agricultura é diversa, quintais fartos, frutas, hortaliças e sobretudo abóboras, mandiocas, batata doce. Um saber de quem sabe cuidar, que se apercebe de um deterioramento e de uma escassez dos alimentos. Muitos na aldeia já não plantam mais, são beneficiados pelas cestas do governo federal, o que acontece geralmente em quase todas as aldeias do Brasil. Existe um empobrecimento da população indígena, escassez de alimento, invasão de terra por mineradoras, e todas com consentimento político, aprovado em várias instâncias governamentais. Percebe-se que Areal enfrenta problemas ambientais, poluição dos rios, não somente pela mineradora, mas também por outros aspectos de poluição do homem branco, até então contornados. As mestras e matriarcas indígenas mais velhas da Aldeia, Dona Ilda, e Dona Gleusa, ambas irmãs, contam como após a chegada do mineraduto tudo ficou mais difícil com o trato com a terra, já não podiam circular mais pelas terras que foram plantadas pelos avós e pais. 

Para despertar essa conversa tomei como referencial o trato e o cuidado com o alimento da banana: retomámos receitas antigas, e apresentei novas possiblidades de uso e consumo da banana.  A banana verde foi logo transformada em pratos diversos, com o seu aproveitamento integral, utilizando também recursos da mandioca, a sua farinha, tudo isso fez com que a discussão do paladar entrasse em cena. A banana verde, presente em vários quintais, apesar de sua contaminação pelo solo, ainda tem sido um alimento vivo na vida dos moradores. Falámos o que seria viável de trazer de fora até se resolver as questões da contaminação, mas muitas das participantes, indagaram que aquela terra era delas e aquelas plantações também, e que deveriam ter outra solução.

Os relatos das Botocudas é de que há descaso com a comunidade por parte governamental e também pela mineradora que deixou ainda mais fragilizada toda aquela estrutura. Percebe-se que não há como se deslocar para outras possibilidades alimentares que não aquelas ali presentes nas hortas e na vida daquelas pessoas. Sabemos que em breve vamos ter problemas mais graves com relação ao adoecimento de toda aquela comunidade. Os sintomas de uma problemática maior já se apresentam, problemas pulmonares, problemas de pele e gastrointestinais. O uso integral da banana como mecanismo de se fortalecer, acompanhado ou não por outros alimentos serve de remédio, ela verde guarda em sua essência o poder contra as mais diversificadas doenças, controle da diabetes, melhoria da circulação sanguínea, melhoria dos problemas relacionados à falta de cálcio. Discutimos a sua composição com outros alimentos, que além de nutrir servem a desintoxicação do corpo, e foi proposto eliminar os alimentos que são produzidos de formas ultraprocessadas, que aliás são estes alimentos que chegam das cestas oferecidas a toda aldeia indígena, alimentos que não condizem com as histórias alimentares dos Botocudos. 

Assim como a aldeia dos Botocudos, a comunidade quilombola de Degredo, também enfrenta problemas no campo da saúde e da alimentação. A área encontra-se afetada pela contaminação, e anteriormente ao episódio da mineração, ela já enfrentava obstáculos com o mineraduto proveniente da Petrobás, empresa público-privada brasileira.  No caminho do quilombo, já se podem observar os grandes tubos que cortam o lugarejo, gás encanado em grande extensão. Ao chegar ao local, observamos uma comunidade composta quase por mulheres, poucos homens e poucas crianças e jovens. A matriarca Dona Maria Correa de Araújo, quase uma centenária, neta de escravos, resguarda até os dias de hoje o saber fazer da produção de mandioca, da farinha ao beiju. 

Tal como em Areal, chegámos para um diálogo com o que se produz, no entanto, observámos um novo aspecto: aqui a Petrobrás implementou por medida compensatória uma fábrica, para que o quilombo pudesse gerir a sua produção, sendo a maior parte das receitas produzidas para escolas e feiras. As receitas produzidas eram de origem comercial, com base em glúten, ovos, leite industrializado, margarina e outros conservantes e aromatizantes. A produção se dava por meio de biscoitos amanteigados, como por exemplo, casadinhos e rosquinhas. Foi a partir da observação sobre o que se oferece às crianças das escolas dos distritos, assim como o que é de alimentação básica do quilombo, que iniciámos as nossas conversas. As filhas da matriarca tinham ido ao “Encontro Ancestral” que ocorreu em 2018, e demonstraram interesse em pensar as comidas da comunidade, até porque muitos dos pratos tradicionais haviam se perdido.

A perda da memória tem sido um forte processo em comunidades tradicionais, o mais comum é o discurso da facilidade que se tem dos alimentos industrializados, ultraprocessados.  Tanto para indígenas quanto para quilombos tem sido um desafio político discutir a apropriação identitária pelo viés da alimentação ancestral. Os governos têm tomado como medida a distribuição de cestas básicas para as comunidades sem qualquer critério alimentar e sem qualquer discussão no campo da soberania alimentar. 

A proposta deste trabalho com o Quilombo, foi desconstruir o conceito de que a comida é a mesma para todos. Propor a partir das memórias permanentes, vistas inclusive pela matriarca, a retomada da produção da mandioca como elemento importante e fundador dos aspectos alimentares da comunidade. Foi nesse contexto que as receitas foram levadas à fábrica, assim como adaptadas como possibilidade de se comer alimentos que refletem a memória e a história do lugarejo. A comunidade que tem plantação e sempre viveu do coco seco e seus derivados, da mandioca e seus derivados, e do milho e seus derivados.  Retomar este cardápio, levar para as escolas, apropriar do que é de seu pertencimento, nos traz muitas reflexões sobre as receitas que hoje são financiadas pela Petrobrás, assim como, as que eram produzidas sem nenhuma reflexão política do campo da resistência cultural e social, aqueles alimentos que estão em processo de esquecimento. Por isso foi importante retomar a farinha de beiju para desenvolver receitas em substituição ao trigo, assim como a banana, o inhame, a batata doce, e utilizar o gengibre ou o amendoim na produção dos biscoitos. 

Por fim, é importante ressaltar que este trabalho merece ser desdobrado, e deve ser refletido de forma integrada aos movimentos de resistência tanto indígena quanto quilombola.  Aproximar mais vezes as comunidades que são originárias, ancestrais, pois elas possuem características semelhantes tanto nos seus aspectos de resistência para a sobrevivência, na superação de uma política excludente e genocida, quanto em sua semelhança com muitos alimentos e pratos que se atravessam. Isto pode ser observado inclusive na moqueca capixaba, prato tradicional da região com sérios problemas em sua continuidade, devido aos crimes ambientais que contaminaram os peixes e seus respectivos habitats. O diálogo entre comunidades ancestrais tem sido a chave para resolver muitos problemas, especialmente alimentares, e por isso é importante mesmo que de forma indireta sejam estimulados os encontros e a troca de saberes, mesmo que virtualmente. Atualizar as novas formas de viver trará outros reflexos para as comunidades ancestrais, com a participação de jovens e crianças na construção de uma nova forma de viver os aspectos da ancestralidade, sejam eles no entorno das comunidades, ou em distâncias mais longas. 

Patrícia Brito – Graduada em Letras, especialista em politica cultural. Cozinheira, banqueteira e pesquisadora alimentar.

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