Quem persegue padre Júlio Lancellotti persegue Jesus Cristo e seu Evangelho de libertação integral. Por frei Gilvander Moreira

Defender o padre Júlio Lancellotti é dever de toda pessoa cristã e de quem dedica a vida a lutar pela construção de uma sociedade justa

Escrevo este texto para manifestar nosso irrestrito apoio ao nosso querido, admirado e respeitado padre Júlio Lancellotti, que há várias décadas vem sendo outro Cristo no nosso meio, especialmente no meio da População em situação de Rua da capital de São Paulo. Repudiamos com veemência a CPI na Câmara de Vereadores de São Paulo contra as ONGs que prestam apoio às pessoas em situação de rua e contra a atuação do padre Júlio Lancellotti.

É política fascista e nazista “proibir dar comida às pessoas em situação de rua”, como vereadores de direita e de extrema-direita querem proibir na capital de São Paulo ou “internar de forma compulsória as pessoas em situação de rua”, “multar as famílias que têm pessoas em situação de rua”, “confiscar/roubar seus pertences” e “castrar as mulheres em situação de rua”, como foi aprovado em 1º turno na Câmara de vereadores de Belo Horizonte, MG, por vereadores de centro e de extrema direita. Este Projeto de Lei fascista não se tornou Lei em Belo Horizonte graças à luta do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, da Pastoral de Rua e dos muitos Movimentos Sociais que aderiram à luta para barrar este brutal PL. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal obrigando os estados e municípios a implementarem Políticas Públicas de apoio às pessoas em situação de rua inviabilizou a votação em 2º turno do PL racista em BH.

Se prestarmos atenção ao que defendem os políticos de centro, de direita e principalmente de extrema-direita, veremos que são egoístas, defendem privilégios para uma minoria, defendem políticas de morte para a maioria e a reprodução da desigualdade social cada vez mais brutal. Quem vota em políticos de centro, de direita e de extrema-direita está entregando a chibata na mão de capitães do mato para chibatar a classe trabalhadora e camponesa. A esquerda não é perfeita, mas tem senso de humanidade, de empatia, de amor ao próximo e luta pela superação das desigualdades sociais e injustiças agrária, urbana e ambiental.

Assim como Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, Che Guevara, Zumbi, Dandara, Antônio Conselheiro, camponeses do Contestado, dom Pedro Casaldáliga, Dom Hélder Câmara, irmã Dorothy Stang, Chico Mendes, padre Josimo Tavares, padre Ezequiel Ramin, os Sem Terra massacrados em Corumbiara, em Eldorado dos Carajás, em Felisburgo, o líder indígena Sepé Tiaraju, cacique Chicão e uma multidão de indígenas massacrados por capitalistas, colonialistas, fazendeiros, grileiros, empresários do agronegócio, desmatadores, políticos de direita e de extrema-direita, padre Júlio Lancellotti vem sendo há décadas perseguido por filhos das trevas, por quem insiste em reproduzir a brutal desigualdade socioeconômica que campeia no Brasil. Padre Júlio consola de forma libertadora os violentados por uma sociedade capitalista e incomoda os opressores e exploradores, pois “põe o dedo na ferida”, aponta as causas da injustiça social e as soluções que passam necessariamente por políticas públicas que precisam ser implementadas para resolver de forma justa as injustiças que abatem sobre o povo marginalizado.

Padre Júlio combina duas características imprescindíveis do jeito de agir e ensinar de Jesus Cristo: solidariedade e luta por justiça. Com uma mão, padre Júlio é solidário com os violentados em situação de rua, com as mulheres vítimas do machismo, do patriarcalismo, do feminicídio; é solidário com o povo negro vítima das relações sociais escravocratas, o que reproduz o racismo; é solidário com o povo LGBTQIA+ na luta pela superação da homofobia para que toda pessoa, sem exceção, seja respeitada na sua dignidade; é solidário com os sem-terra e sem-teto que lutam por um pedaço de chão, por teto, pão e liberdade para se libertar da pesadíssima cruz do aluguel, ou humilhação que é sobreviver de favor nas costas de parentes ou nas intempéries das ruas; é solidário com os Povos Indígenas submetidos a genocídio há mais de cinco séculos; enfim, padre Júlio é solidário com todas as pessoas que são injustiçadas e violentadas na sua dignidade. E com outra mão, padre Júlio luta por justiça no seu sentido profundo, pois denuncia as causas e os causadores das injustiças. Padre Júlio não aceita paliativos para a injustiça que campeia nas ruas de São Paulo e nem que se rotulem as vítimas das injustiças como se fossem elas as causadoras da violência. Padre Júlio incomoda, porque denuncia políticos que representam os interesses do grande capital e as políticas asquerosas e brutais.

Feliz padre Júlio, que é perseguido por lutar por justiça para os irmãos e irmãs em situação de rua! Feliz padre Júlio, que, pelo seu jeito humilde de agir, constrói caminhos para a paz como fruto da justiça!

Padre Júlio, estamos com você, o Deus da vida está com você. Você, padre Júlio, testemunha a presença de Jesus Cristo no nosso meio. Mexeu com padre Júlio, mexeu conosco e com milhões de pessoas que buscam amar o próximo. Enfim, perseguir o padre Júlio Lancellotti é perseguir Jesus Cristo e seu Evangelho de libertação integral.

Sobre o autor:

Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG.

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