Fortalecendo a intersetorialidade em tempos de emergência climática na luta contra as iniquidades em saúde

Mudanças climáticas, perda de biodiversidade, degradação ambiental, pandemias, resistência aos antimicrobianos, riscos na segurança dos alimentos e insegurança alimentar são faces da mesma crise sistêmica global, profundamente interconectadas com o modelo econômico capitalista dominante. A implementação de estratégias baseadas na abordagem Uma Só Saúde torna-se essencial para enfrentar os desafios contemporâneos de forma mais efetiva, promovendo uma visão sistêmica que integra as dimensões da saúde humana, animal, vegetal e ambiental

Quando a pandemia de COVID-19 nos impactou com consequências catastróficas, ficou ainda mais evidente que nossa abordagem fragmentada da saúde havia falhado sob diversas perspectivas, como na detecção precoce, na adoção de medidas de controle oportunas e na capacidade de resposta ágil e efetiva. Igualmente, na fragilidade da coordenação e compartilhamento de dados, na interrupção de outros serviços essenciais e na disseminação massiva de desinformação. Esta situação reafirmou a urgência da incorporação de uma visão integrada compreendendo saúde humana, animal, vegetal e ambiental, entendendo que neste último deve-se considerar um sistema socioecológico complexo que engloba elementos bióticos e abióticos interconectados, fundamentais para a sustentabilidade da vida e da saúde. Não há “Uma Só Saúde”, também conhecida como “Saúde Única”, sem compreender que a crise sistêmica global, incluindo a relação das mudanças climáticas, degradação ambiental, ameaças na biodiversidade e a ocorrência de emergências de saúde pública, como as epidemias e pandemias, estão profundamente interconectadas com o modelo econômico capitalista.

Essas crises não são efeitos colaterais do sistema econômico atual, elas são consequências inevitáveis de um modelo que prioriza o lucro privado sobre o bem-estar coletivo e a sustentabilidade. A emergência da pandemia de COVID-19 não representou um evento isolado na história recente das epidemias, mas sim o mais recente capítulo de uma sequência preocupante de ameaças de origem zoonótica à humanidade, ou seja, que começaram nos animais e depois passaram a afetar também as pessoas, que têm se intensificado nas últimas décadas.

Nossa história recente nos relembra da pandemia pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, causada por um coronavírus) em 2002-2003, a pandemia de influenza H1N1 em 2009, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS, também causada por coronavírus), os surtos de Ebola na África Ocidental, a disseminação internacional da Mpox (originalmente conhecida como Monkeypox) a emergência de Zika nas Américas, as epidemias de febre amarela no Brasil, e os riscos atuais decorrentes da influenza aviária H5N1, exemplos que ratificam que a maioria das doenças infecciosas emergentes têm origem zoonótica, sendo a maior parte delas advindas de origem silvestre. Soma-se a isso, os riscos na interface com a saúde ambiental, citando apenas sob a perspectiva  do Brasil, eventos que evidenciam dramaticamente a urgência de uma abordagem integrada: as enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul em 2024 que demandaram ações integradas de diferentes setores, secas prolongadas na bacia do Rio Amazonas, as queimadas extensas que assolam distintos biomas e os desastres em barragens de mineração, todos decorrentes, em algum grau, de ações antrópicas – eventos relacionados ou decorrentes de atividades humanas sobre o meio ambiente – que impactam diretamente a saúde humana, animal, vegetal e os diferentes e complexos ecossistemas terrestres e aquáticos. Os eventos supracitados podem – e devem – ser compreendidos como resultantes da intensificação do desmatamento ilegal, da expansão agrícola desordenada, do intenso e contínuo processo de urbanização não planejada, da perda da biodiversidade, do comércio ilegal de animais silvestres e da crescente proximidade entre populações humanas e habitats selvagens. A recorrência desses eventos evidencia que, sem uma abordagem integrada, estaremos cada vez mais vulneráveis a novas emergências sanitárias de proporções imprevisíveis, potencialmente catastróficas.

Zonas silvestres, rurais e urbanas

A proximidade entre fauna silvestre e populações humanas em diferentes cidades brasileiras pode representar um risco para a transmissão de patógenos. Importante destacar que os animais silvestres frequentemente atuam como sentinelas de desequilíbrios ambientais e são, em muitos casos, vítimas de alterações antrópicas que favorecem a emergência de doenças. Belo Horizonte, Belém e Corumbá possuem mercados públicos que comercializam animais silvestres e domésticos, em locais onde também há comercialização de alimentos, apresentando riscos de transmissão zoonótica nesses locais. Além disso, cidades como Belo Horizonte e Campo Grande enfrentam riscos adicionais relacionados ao contato inadequado com animais silvestres nas cidades com populações urbanas de animais antropizados, como capivaras, primatas não-humanos (saguis), gambás e quatis. Estes animais, ao se adaptarem aos ambientes urbanos devido à perda de habitat natural, enfrentam estresse e condições que podem comprometer seu sistema imunológico, tornando-os mais suscetíveis a patógenos. Os parques urbanos, apesar de sua fundamental importância para o bem-estar social e qualidade de vida das populações, quando desprovidos de políticas de prevenção adequadas, representam zonas de risco particulares em diferentes cidades brasileiras, onde a interação com diferentes animais, além da presença de colônias de morcegos no contato com animais domésticos, amplifica as oportunidades de transmissão de patógenos zoonóticos. É crucial reconhecer que estes espaços devem ser planejados considerando tanto a conservação da biodiversidade quanto a saúde humana, numa perspectiva de coexistência sustentável. Exemplo disso são cidades da região Sudeste do país – como Campinas e Belo Horizonte – onde a transmissão da febre maculosa brasileira ocorre em parques públicos urbanos com crescente presença de grupos de capivaras, evidenciando a necessidade de manejo integrado no ecossistema urbano. Da mesma forma, o ecoturismo e o turismo em áreas rurais, embora fundamentais para a saúde e o bem-estar humano, podem representar riscos quando não acompanhados de orientação adequada e protocolos sanitários. Nessas situações, os visitantes podem estar expostos a acidentes com animais peçonhentos ou ao acometimento por doenças como febre amarela silvestre, leishmanioses, raiva, malária, esquistossomose e febre maculosa, dentre outras. Tais riscos estão associados a diferentes contextos de exposição, incluindo o contato não intencional ou irregular com a fauna silvestre.

Estas exposições em ambientes urbanos e rurais evidenciam a necessidade de implementação urgente de estratégias integradas de vigilância intersetoriais com a abordagem Uma Só Saúde, manejo de fauna urbana, além de educação e comunicação em saúde. Esta abordagem deve superar a visão antropocêntrica que percebe os animais silvestres apenas como “reservatórios” de patógenos, reconhecendo-os como componentes essenciais dos ecossistemas cujo bem-estar está intrinsecamente ligado à saúde dos seus componentes. A conservação da biodiversidade não representa uma ameaça à saúde humana, mas sim uma estratégia fundamental para a prevenção de emergências sanitárias, uma vez que ecossistemas preservados e equilibrados são mais resilientes e menos propensos ao surgimento de surtos zoonóticos.

Conhecimentos ancestrais e Teoria da Mudança

O conceito e o paradigma da Uma Só Saúde não é novo. Ele se fundamenta em epistemologias ancestrais desenvolvidas por povos originários, incluindo comunidades indígenas e sociedades pastoris africanas, cujas estruturas de saúde holística e sistemas integrados refletem a interdependência da saúde e do bem-estar humano, animal e ambiental, moldada por determinantes sociais, culturais, políticos e econômicos. Além disso, a Theory of Change (Teoria da Mudança) aplicada na Uma Só Saúde reconhece que a saúde integral das populações originárias depende da valorização de seus saberes, da proteção de seus territórios e da articulação de forma culturalmente sensível e igualmente participativa. O pensamento sistêmico da Uma Só Saúde configura-se como um referencial teórico-metodológico que permite compreender a complexidade sociocultural na identificação de pontos críticos de intervenção para a promoção de ações sustentáveis, cuidados equitativos e a justiça social e climática na implementação de políticas públicas, considerando ainda as interações humanas em diferentes biomas e a interseccionalidades de raça/cor, gênero e classe que influenciam os sistemas de saúde em contextos diversos, afetando desproporcionalmente comunidades vulnerabilizadas, como populações negras, indígenas e periféricas, exacerbando desigualdades sociais e de saúde. Tendo como consequência ainda o racismo ambiental que manifesta-se quando populações étnico-raciais são sistematicamente marginalizadas no acesso a direitos básicos e desproporcionalmente expostas à riscos sanitários e ambientais.

Oportunidade histórica para o Brasil

Hoje, enquanto o Brasil discute seus Planos Nacionais de Uma Só Saúde e o Plano Clima, ambos submetidos para consulta pública com ampla participação popular, cria-se uma oportunidade histórica de conectar, sob a perspectiva de política de Estado, essas estratégias em uma abordagem que fortaleça, amplie a capacidade de análise, prevenção e resposta acerca dos diferentes problemas de saúde e ambiente. Importante destacar que ações fundamentadas no conceito de Saúde Única/ Uma Só Saúde não representam uma novidade na América Latina, sobretudo no Brasil, onde iniciativas nessa abordagem têm sido registradas desde 2007. Estudo desenvolvido por pesquisadores do Brasil, Chile e Colômbia evidenciam que na região latino-americana e, em geral, no Sul Global, existe um processo característico de construção “bottom-up” (de baixo para cima) contrária à colonialidade, onde movimentos comunitários de base precederam à formalização conceitual, especialmente em comunidades rurais, indígenas e populações vulnerabilizadas que já praticavam abordagens integradas entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental.[1]

Essa abordagem de colaboração interdisciplinar e intersetorial recentemente ganhou um importante e necessário reconhecimento institucional no Brasil com o estabelecimento do Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, através do Decreto Nº 12.007, de 25 de abril de 2024, do governo federal. O Comitê tem a finalidade de elaborar e apoiar a implementação do Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde, objetivando traçar diretrizes para a prevenção e controle de ameaças à saúde por meio de abordagem integrada e cooperativa que reconheça a conexão entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental, vindo assim reforçar e institucionalizar práticas com governança intersetorial, incluindo diversos setores estratégicos, como saúde, agricultura, meio ambiente, educação, ciência e tecnologia, desenvolvimento social, planejamento urbano, indústria, energia, saneamento, turismo, relações exteriores, comércio, economia, defesa, comunicação, dentre outros. A composição prevista para o Comitê Técnico representa um significativo avanço na implementação da abordagem Uma Só Saúde no Brasil, ao reunir de forma inédita representantes de 22 órgãos e entidades que abrangem diferentes pilares desta estratégia integrada. Contudo, a atual configuração pode – e deve – ser aprimorada com a incorporação de representação formal da sociedade civil organizada (incluindo conselhos setoriais com abrangência nacional já estabelecidos), de entidades científicas e instituições de ensino superior (como universidades e institutos de pesquisa) com direito a participação e voto na estrutura formal do Comitê de modo a contribuir para além dos  grupos de trabalho, como já vem sendo realizado, mas na definição das bases teóricas, diretrizes técnicas e ações governamentais consonantes com os princípios que, de fato, permitam a construção coletiva, plural e representativa.

Sistemas socioecológicos em nível planetário

A necessidade de uma discussão ampliada e representativa acerca da Uma Só Saúde é amplamente conhecida e vem sendo abordada sob diversos prismas. A Comissão Lancet sobre Uma Só Saúde (2025) apresentada em publicação recente traz uma visão importante ao estabelecer princípios transdisciplinares, sócio ecologicamente orientados, centrados na equidade e na inclusividade. A Comissão traz a complexidade inerente aos sistemas socioecológicos, que são caracterizados por escalas espaço-temporais variadas e interseccionais, desde a escala no nível individual e das comunidades até a escala macroespacial, além de escalas temporais incluindo a evolução. Esta perspectiva de sistemas socioecológicos é fundamentalmente holística e baseada na compreensão das interconexões sistêmicas e sobre resiliência, que pode ser compreendida como a capacidade adaptativa de um ecossistema em meio à transformação.[2] Há ainda que se considerar a conexão com os conceitos de Uma Só Saúde (One Health) e Saúde Planetária (Planetary Health). Enquanto o  conceito de Uma Só Saúde  reconhece a interdependência fundamental entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental, a Saúde Planetária inclui os impactos sistêmicos mais amplos que as transformações ambientais causadas pelos humanos exercem sobre os sistemas de saúde globais.[3] A Saúde Planetária se dedica a compreender como as vastas e aceleradas transformações ambientais causadas pela humanidade não só ameaçam a vida no planeta, mas intrinsecamente comprometem a saúde e o bem-estar humano. Essas abordagens complementares destacam a necessidade urgente de estratégias integradas que reconheçam e abordem as interdependências complexas, promovendo assim um futuro mais sustentável e resiliente.

O SUS e os ODS

Devemos situar Uma Só Saúde além de sua lógica de fortalecer a governança intersetorial e no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), pois deve ser compreendida como algo intrínseco e inerente a diversas áreas de saber, como Saúde Coletiva e Medicina Tropical. A Saúde Coletiva e suas interfaces com as Ciências Humanas e Sociais, a epidemiologia crítica, a participação social e com a construção e implementação das políticas e planejamento de ações em saúde contribuem, de forma conceitual e metodológica, para que a abordagem Uma Só Saúde busque refletir criticamente de forma contínua seus saberes e práticas e incorpore elementos importantes para o enfrentamento de questões cada vez mais complexas, que demandam ações intersetoriais que historicamente não vinham sendo efetivadas de forma coordenada em termos de governança. Da mesma forma, esta abordagem não pode ser construída e implementada sem considerar o histórico e relevância da Medicina Tropical, como área de saber e atuação, no enfrentamento de doenças endêmicas, epidêmicas e negligenciadas, sempre considerando as vulnerabilidades históricas socialmente determinadas. A abordagem Uma Só Saúde traz consigo um convite ao diálogo com diferentes áreas de conhecimento, campos e núcleos de práticas de áreas afins. A epistemologia desses saberes diversos é fundamental para compreender as bases teóricas e metodológicas que sustentam cada campo, possibilitando uma integração mais profunda e respeitosa. Infelizmente há muita desinformação em torno da discussão. Não há disputa de espaços ou saberes, mas sim uma tentativa conjunta de somar esforços para fortalecer a saúde e a sustentabilidade, através de uma rede seriamente comprometida com o desenvolvimento do país. Ao se discutir a adoção de Uma Só Saúde como ação no âmbito de políticas públicas, busca-se construir pontes entre conhecimentos complementares, reconhecendo que os desafios contemporâneos em saúde exigem abordagens integradas que considerem a expertise acumulada enquanto inovam nas formas de articulação e governança intersetorial.

Sob a perspectiva de que a lógica de Uma Só Saúde esteja conectada com as realidades territoriais e as necessidades populacionais, a participação popular e o controle social devem ser considerados elementos fundamentais para que essa lógica esteja consonante com a perene defesa da Universalidade, Equidade e Integralidade, pilares fundamentais do Sistema Único de Saúde e de uma democracia sólida. A prevenção e o controle de doenças e agravos, principalmente aqueles relacionados às históricas vulnerabilidades socioeconômicas no Brasil, no Sul global, exige reconhecer que sem considerar determinação socioambiental, qualquer política pública será incompleta e, potencialmente, ineficaz. Segundo a Organização Mundial de Saúde, as iniquidades em saúde são diferenças sistemáticas no estado de saúde entre diferentes grupos populacionais, resultando das condições sociais onde as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem. Essas desigualdades persistentes retardam o desenvolvimento dos diferentes territórios e mostram a necessidade de alinhamento com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável no Brasil.

No contexto brasileiro, o Programa Brasil Saudável: Unir para Cuidar representa uma resposta nacional a alguns destes desafios. Esta iniciativa do Governo Federal, lançada em 2024, está alinhada com as metas da Agenda 2030 da ONU e busca eliminar 11 doenças determinadas socialmente consideradas importantes problemas de saúde pública, tendo grande parte delas sua origem zoonótica e alinhamento com a abordagem de Uma Só Saúde, demonstrando como políticas integradas devem abordar determinantes sociais da saúde e reduzir as iniquidades no país. Como enfatizado no Programa, parte-se do pressuposto de que a saúde, instituída como um direito constitucional, se encontra no centro da intersecção das dimensões sociais, econômicas e ambientais que norteiam o desenvolvimento sustentável de um país. A integração das políticas públicas para acelerar o processo de eliminação destas doenças determinadas socialmente se justifica pela necessidade de abordar as condições que originam as causas dessas doenças e infecções, que há anos coexistem às margens da nossa sociedade.

Impactos climáticos e da produção de alimentos na saúde

Um estudo publicado no periódico científico Nature Climate Change demonstra o impacto direto das mudanças climáticas sobre as doenças infecciosas humanas estudando dez principais perigos climáticos sensíveis às emissões de gases de efeito estufa. Os autores apontam que 58% (218 de 375) das doenças infecciosas conhecidas foram agravadas por esses fenômenos. A pesquisa evidencia que os perigos climáticos intensificam a ocorrência de múltiplas doenças e contribuem para ampliação dos padrões e vias de transmissão, expandindo geograficamente áreas de risco, e colocam sob risco um número crescente de pessoas, criando condições favoráveis para novos surtos, epidemias e pandemias. A evidência científica é clara: sem ação climática efetiva, continuaremos enfrentando um aumento progressivo na incidência e severidade de doenças sensíveis ao clima.[4] Esses dados reforçam que a adoção de medidas, consonantes com a lógica de Uma Só Saúde, que visem a redução das emissões de gases de efeito estufa não é apenas uma questão ambiental, mas uma urgente medida de saúde pública global.

Devemos enfatizar que a segurança dos alimentos sem acesso ao alimento como pilar indispensável da segurança alimentar é insuficiente. Considerando que o Brasil é um grande produtor mundial de alimentos, é inaceitável que milhões vivam com insegurança alimentar e nutricional. Importante mencionar que a Carta de São Paulo para o compromisso no fortalecimento da “Saúde Única/Uma Só Saúde”, documento resultante de oficina no 59º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, realizado em setembro de 2024, traz a urgente necessidade de se repensar e criar condições para mudanças do sistema alimentar global, reduzindo a dependência da pecuária industrial e uso de agrotóxicos, promovendo estratégias sustentáveis como a sociobiodiversidade, a agroecologia e a bioeconomia. Há de se enfrentar a lógica da produção agropecuária que ao priorizar produção em larga escala voltada para exportação vem impondo desmatamento com ocupação perniciosa do solo, exploração excessiva de recursos naturais, uso de agrotóxicos, poluição do ar, da água, do solo, na geração de resíduos, degradação de ecossistemas, cenários de tensão entre agricultura familiar e agronegócio intensivo e situações de violência no campo. Na lógica do sistema capitalista neoliberal a busca incessante por lucro e acumulação torna praticamente inevitável um profundo e destrutivo impacto sobre o meio ambiente e seus diferentes biomas. Como contraponto, propõe-se o fortalecimento de práticas agrícolas sustentáveis e resilientes, como a agricultura e pecuária familiar. Mais do que uma questão técnica, trata-se de reconhecer que a verdadeira segurança alimentar só poderá ser alcançada quando houver a convergência entre a produção sustentável de alimentos seguros e o acesso equitativo a uma alimentação adequada e saudável – princípios que estão no cerne da abordagem de Uma Só Saúde mas, no cenário atual, estão, em grande parte, dissonantes do modelo produtivo priorizado no Brasil. A segurança alimentar, a saúde das pessoas, a conservação da biodiversidade e a mitigação das mudanças no clima, objetivos de Uma Só Saúde, definitivamente não serão tangíveis sem uma profunda revisão dos sistemas de produção e de consumo.[5]

Fortemente relacionado ao modelo vigente de produção agropecuária se insere a questão da resistência aos antimicrobianos (RAM), um dos maiores desafios globais de saúde pública, também fortemente influenciado pelo uso indiscriminado de antimicrobianos na saúde humana. Os impactos e custos – diretos e indiretos – da RAM sobre a saúde humana e sistemas de saúde passaram a ser objeto de preocupação não apenas sob a perspectiva médica – em um contexto de milhões de casos de infecção e mortes decorrentes de microrganismos multirresistentes aos medicamentos atualmente disponíveis –, mas ao sistema financeiro global. Em 2021, estimou-se que 4,71 milhões de mortes estiveram associadas à resistência bacteriana a antimicrobianos, incluindo 1,14 milhão de óbitos diretamente atribuíveis a essa condição. Os territórios com maior taxa de mortalidade por RAM em todas as idades previstas para 2050 são o sul da Ásia e a América Latina e o Caribe.[6] Globalmente, estima-se que mais de 70% de todos os antimicrobianos sejam utilizados em animais de produção, criando uma pressão de seleção significativa para o surgimento e a disseminação de bactérias resistentes. Estas podem ser transmitidas aos seres humanos por meio do contato direto, do consumo de alimentos e de vias ambientais, configurando uma séria ameaça à saúde pública, à segurança alimentar e à sustentabilidade de longo prazo da produção animal.

No Brasil, além desse cenário global preocupante, há desafios regulatórios específicos no setor agropecuário. Antibióticos estão amplamente disponíveis sem prescrição em lojas de insumos agropecuários, incluindo uma ampla gama de antimicrobianos considerados criticamente importantes para a saúde humana. A magnitude desse problema exige colaboração urgente – incluindo a adoção de políticas regulatórias em diferentes contextos – entre todos os setores para garantir o uso racional e responsável de antimicrobianos, ratificando, uma vez mais, a necessidade de adoção de políticas públicas sob a lógica de Uma Só Saúde também no enfrentamento da RAM.

Direitos territoriais para adiar o fim do mundo

Outro aspecto a ser abordado quando se discute a necessidade da adoção da lógica da Saúde Única como estratégia para enfrentamento de questões complexas e globais é o fato de que a proteção ambiental e a preservação da biodiversidade estão intrinsecamente ligadas à necessidade de reconhecimento e garantia dos direitos territoriais dos povos tradicionais. A Carta de São Paulo enfatiza ainda a necessidade de implementar políticas para preservação de florestas naturais dos diferentes biomas e da biodiversidade. Os povos indígenas e comunidades tradicionais devem ser compreendidos como guardiões históricos dos ecossistemas e suas terras demarcadas constituem barreiras naturais contra destruição das florestas, ocupação ilegal do solo e práticas abusivas da mineração, incluindo o garimpo ilegal e a agricultura extensiva, já que ambas práticas contribuem para a perda da biodiversidade, o avanço do desmatamento e poluição de recursos hídricos e contaminação do solo. Portanto, a efetivação dos direitos territoriais desses povos é um dos elementos essenciais para a manutenção do equilíbrio ecológico, consolidando uma abordagem integrada que valoriza tanto a biodiversidade quanto a diversidade cultural como elementos fundamentais para a sustentabilidade e a saúde. Ailton Krenak, em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo, afirma que “A ideia de nós, os humanos, nos deslocarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino, e se possível a mesma língua para todo mundo.” Reconhecer e respeitar as particularidades dos distintos povos é entender que a proteção ambiental e a preservação da biodiversidade estão intrinsecamente ligadas ao reconhecimento e à garantia dos direitos territoriais dos povos tradicionais.

A realização da 5ª Conferência Global em Clima e Saúde (conferência oficial pré-COP30) e a COP 30 de 2025 no Brasil devem ser compreendidas como uma oportunidade crucial para o fortalecimento da cooperação nacional e internacional, facilitando a colaboração entre os setores de saúde humana, animal, vegetal e ambiental no âmbito da agenda climática. É fundamental considerar as prioridades previamente estabelecidas na Declaração sobre Clima e Saúde da COP 28 nos Emirados Árabes Unidos, que enfatizaram a necessidade de sistemas de saúde resilientes ao clima e sustentáveis, bem como a colaboração intersetorial para reduzir emissões e maximizar os benefícios das ações climáticas para a saúde. Adicionalmente, é imperativo o alinhamento das estratégias com os objetivos da Convenção sobre Diversidade Biológica, o Acordo de Pandemias da OMS e as Declarações do G20 emitidas pelos Presidentes da República e Ministros da Saúde, que incorporam a abordagem de Uma Só Saúde. Em um cenário onde a desinformação se propaga rapidamente, devemos situar que a ciência emerge como uma ferramenta fundamental para embasar políticas e práticas de saúde pública. A abordagem de Uma Só Saúde busca contribuir com evidências científicas no enfrentamento dos diferentes desafios complexos da sociedade atual.

Os desafios contemporâneos evidenciam como a determinação socioambiental da saúde se manifesta através das desigualdades territoriais e vulnerabilidades que favorecem a emergência de doenças e agravos, intensificados por políticas públicas fragmentadas e sistemas de vigilância desconectados. Para atingir as capacidade de prever, enfrentar e superar esse cenário, é fundamental buscar de modo democrático e participativo políticas públicas – fundamentadas em boas práticas, avanços tecnológicos e evidências científicas robustas – e ações interdisciplinares, transdisciplinares, interinstitucionais que consideram o contexto atual e cenários futuros intrinsecamente relacionados às  mudanças climáticas, à destruição da biodiversidade, às iniquidades sociais, ao racismo ambiental, à insegurança alimentar, às ameaças aos povos originários e populações vulnerabilizadas e à precarização do Sistema Único de Saúde. Para tanto, é fundamental promover a governança intersetorial, o fortalecimento das instituições legitimamente constituídas e a integração tecnológica através da interoperabilidade dos sistemas de informação. A efetividade dessa resposta depende diretamente da ampliação da capacitação profissional e engajamento de tomadores de decisão capacitados nos diferentes setores e níveis de gestão. A abordagem Uma Só Saúde, ao reconhecer que o Bem Viver das populações nos diferentes territórios depende da promoção da saúde humana, animal, vegetal e da proteção do meio ambiente e da biodiversidade, em última análise aponta para a imperativa incorporação de ações conduzidas por todos, visando a promoção de saúde de todos e para todos.

 

David Soeiro Barbosa é médico veterinário, epidemiologista, professor e pesquisador. Doutor em Epidemiologia em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fiocruz, com período sanduíche na Harvard School of Public Health e intercâmbio na Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi professor visitante em programa de pós-doutorado na London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM). É professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais, atuando no Programa de Pós-Graduação em Parasitologia do Instituto de Ciências Biológicas e no Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG. Integra o corpo editorial da PLOS Neglected Tropical Diseases. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Presidente da Associação Brasileira de Saúde Única (www.abrasuni.com.br). E-mail: [email protected]

Christina Pettan-Brewer é médica veterinária, cientista, professora e líder global em Saúde Única, cuja carreira une pesquisa, comunidade outreach, educação e política internacional. Com formação avançada em medicina de povos originários e Doutorado em Saúde Global, Doenças Infecciosas em Animais Selvagens e Conservação, e One Health. Realizou pós-doutorados no Centers for Disease Control and Prevention (CDC-Atlanta) e na University of Washington School of Medicine. É orientadora plena do Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas e Saúde/Medicina da Família no University of Washington Center for One Health Research (COHR). Atua como representante da América, e é especialista-chave em diplomacia para organizações internacionais, incluindo UNEP Nature for Health (N4H), Scientific Technical Advisor Co-Chair, OMS, WOAH, PREZODE e a International Alliance against Health Risks in Wildlife Trade, além de Editora científica da CABI One Health, Nature Genetics, Frontiers e Lancet. É uma autoridade reconhecida mundialmente em One Health, Saúde Planetária e EcoHealth. Vice-Presidente da Associação Brasileira de Saúde Única (ABRASUNI). E-mail: [email protected]

Rodrigo Nogueira Angerami é médico infectologista com Doutorado em Clínica Médica e Certificado de Área de Atuação em Medicina Tropical. Coordenador do Núcleo de Vigilância Epidemiológica do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Médico infectologista do Departamento de Vigilância em Saúde de Campinas. Moderador do ProMED – Program for Monitoring Emerging Diseases/ISID. Membro do Grupo “Estratégias para o enfrentamento às doenças que afetam populações negligenciadas” do Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da UNICAMP. Assessor técnico do Programa de Vigilância Epidemiológica da Febre Maculosa Brasileira e Outras Rickettsioses, do Ministério da Saúde do Brasil. Membro da Diretoria Técnica de Zoonoses Endêmicas, Agravos e Outras Doenças Negligenciadas ou Transmitidas por Vetores da Associação Brasileira de Saúde Única (ABRASUNI). Membro do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia. Core member do WHO Skin NTDs One Health Working Group. Membro do corpo editorial da Frontiers in Tropical Medicine e da BMC Infectious Diseases – Viral Diseases. E-mail: [email protected]

Fernando Nogueira de Souza é médico veterinário e pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IMT-FM-USP). Foi Pesquisador Visitante da Ghent University (Bélgica). É orientador pleno do Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas e Saúde Global da FM-USP e do Programa de Pós-Graduação em Clínica Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ-USP). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, é membro da Associação Brasileira de Saúde Única (ABRASUNI) e coordenador da área de Saúde Única nos Congressos da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT). Integra o corpo editorial da revista BMC Veterinary Research. Liderou grupo de experts da DISCONTOOLS (Animal Health Europe), iniciativa que é referência para o consórcio internacional STAR-IDAZ e para financiadores globais de pesquisa em saúde animal. E-mail: [email protected]

Marcos Boulos é médico infectologista com Doutorado e Livre Docência em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo. Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (2006 a 2010), professor sênior do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e professor visitante sênior do Observatório da Saúde e do Bem Viver da Universidade Federal do ABC (UFABC). Foi presidente do Conselho da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e Superintendente da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN). Email: [email protected]

Notas:

[1] Pettan-Brewer C, Martins AF, de Abreu DPB, Brandão APD, Barbosa DS, Figueroa DP, Cediel N, Kahn LH, Brandespim DF, Velásquez JCC, Carvalho AAB, Takayanagui AMM, Galhardo JA, Maia-Filho LFA, Pimpão CT, Vicente CR, Biondo AW. From the Approach to the Concept: One Health in Latin America-Experiences and Perspectives in Brazil, Chile, and Colombia. Frontiers in Public Health. 2021 Sep 14;9:687110.

[2] Winkler, A. S., Brux, C. M., Carabin, H., et al. (2025). The Lancet One Health Commission: harnessing our interconnectedness for equitable, sustainable, and healthy socioecological systems. The Lancet, 406(10502), 501-570.

[3] Myers SS, Pivor JI, Saraiva AM. The São Paulo Declaration on Planetary Health. The Lancet. 2021 Oct 9;398(10308):1299.

[4] Mora C, McKenzie T, Gaw IM, Dean JM, von Hammerstein H, Knudson TA, Setter RO, Smith CZ, Webster KM, Patz JA, Franklin EC. Over half of known human pathogenic diseases can be aggravated by climate change. Nature Climate Change. 2022;12(9):869-875. doi: 10.1038/s41558-022-01426-1. Epub 2022 Aug 8.

[5] Soeiro-Barbosa D, Carneiro LA, Carvalho AAB, da Motta AG, Alves AJS, Borges A, Pacheco CCA, Stedefeldt E, Quirino FC, Lima Júnior FEF, Megid J, Oliveira JB, Alves J, Galhardo JA, Laurenti MD, Bicca MLC, Frutuoso MS, Oliveira NB, Públio RN, Angerami RN, Coelho TFSB, Magalhães VS, Pettan-Brewer C, Souza FN. The São Paulo declaration on One Health: Brazil’s path forward to face intersectoral health challenges. One Health Outlook. 2025 Jul 1;7(1):34.

[6] GBD 2021 Antimicrobial Resistance Collaborators (2024). Global burden of bacterial antimicrobial resistance 1990-2021: a systematic analysis with forecasts to 2050. The Lancet, 404(10459), 1199–1226.

Imagem: Secom – Defesa Civil RS

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