Negros representam 25% dos moradores da Capital, mas são quase metade dos moradores de áreas de risco
Por Bettina Gehm, Sul21
A Vila Liberdade é um aglomerado de casas que ocupa poucas quadras dentro da Vila Farrapos, bairro Humaitá, zona norte de Porto Alegre. Apesar do espaço reduzido, muitas pessoas moram ali. Maria Elise Borges da Rosa, 41 anos, já perdeu a conta dos moradores. Ela é uma das mais antigas – sua mãe ajudou a aterrar a área – e todos a conhecem como Mary. Só na casa dela vivem sete pessoas, entre esposo, pai, filhas e netos. Mas a soma total de habitantes da Liberdade ficou mais complicada depois da enchente, quando algumas famílias precisaram abandonar suas casas e nunca mais voltaram.
“A gente ouvia dizer que o rio ia invadir as comunidades, mas nunca esperava que fosse acontecer aqui. Eu disse ‘não, eu vou sair da minha casa, não vai ter enchente’. A gente está acostumado que aqui alaga, tem esse valão que é aberto, vive alagando. Mas naquele dia foi uma grande surpresa”, Mary aponta para o arroio a poucos metros de casa e relembra aquele 3 de maio de 2024. “De repente a água começou a soltar pelos bueiros e vir muito, muito, muito rápido. E a gente teve que simplesmente sair, só com a roupa do corpo. Os documentos, graças a Deus, a gente conseguiu salvar”.
Em conversa com o Sul21 no último 20 de novembro, Mary reforçou que a data era significativa: “É Dia da Consciência Negra, o meu dia”. Enquanto a população negra representa 25,9% dos porto-alegrenses, esse perfil racial constitui 40,2% das pessoas vivendo em áreas de risco hidrológico ou geológico, assim como Mary. Os dados são de uma recente pesquisa do Instituto Pólis, que escancara o racismo ambiental na capital gaúcha.
Bairros como Sarandi e 4º Distrito, os mais castigados pelas águas, concentram renda inferior à metade da média da cidade e menor acesso a esgoto e infraestrutura de drenagem. Por outro lado, as áreas predominantemente brancas apresentam cobertura do esgotamento sanitário significativamente maior do que a média: 94,8% das casas estão ligadas à rede geral de coleta de esgoto (85,5% na média municipal). Além disso, 95,5% dos domicílios em áreas predominantemente brancas estão localizados em vias com bueiros (na média são 81,2%) e 99,0% estão em vias com calçadas, 14,2 pontos percentuais acima da média.
Professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, o engenheiro ambiental Maurício Paixão explica que a falta de estrutura adequada para drenagem acaba gerando alagamentos como os que a Vila Liberdade enfrentou no ano passado. “Quando a água não segue o caminho que ela deveria seguir e fica acumulada superficialmente, causa a destruição de vias e de casas. Ter uma estrutura adequada de saneamento é o mínimo que deveria haver em toda a cidade e em todas as cidades”, ressalta.
Mas famílias como a de Mary não vivem ali por acaso. Após o período escravocrata no Brasil, a população negra foi empurrada para cortiços que originaram as favelas. À margem das cidades, esses locais nunca tiveram acesso adequado aos serviços públicos. Hoje, no contexto da crise climática, são chamados zonas de sacrifício.
Naira Santa Rita Wayand, especialista em sustentabilidade e clima que teve a casa devastada durante enchentes em Petrópolis (RJ) em 2022, define as zonas de sacrifício como territórios historicamente marginalizados, expostos de forma desproporcional à crise.
“O que se vê hoje sobre os grupos mais impactados pela crise climática se refere a como a comunidade negra, indígena, quilombola e pessoas em vulnerabilidade social tiveram seus direitos historicamente violados. São áreas afetadas por mineração, desmatamento, favelas em encostas e margens de rio. São espaços onde a vida é sistematicamente colocada em risco em nome do progresso, reforçando desigualdades históricas, apagando modos de vida e normalizando o racismo ambiental”, afirma.
É verdade que bairros da Capital como o Menino Deus também foram atingidos pela catástrofe. Mas, enquanto a região estava sendo limpa e reorganizada, o Humaitá aguardava uma bomba móvel que só veio mais de 20 dias após a enchente para drenar a água. “Isso evidencia o racismo ambiental, mesmo que ele não precise de uma intenção racista”, aponta Paixão. “Ele é consequência dos atos e da falta de atos. Nesse caso, houve uma inoperância pública que teve um efeito negativo sobre uma população marginalizada. E, dentro dessa população, há predomínio dos negros”.
A pesquisa do Instituto Pólis revela ainda que as famílias mais impactadas tiveram que se deslocar de seus territórios de origem ou retornaram a essas áreas sem nenhum tipo de investimento ou proteção, o que pode implicar uma exposição a novas ocorrências como as de 2024.
Foram dois meses fora de casa. Não havia forma de voltar antes disso: Mary relata que a comunidade, às margens da Freeway, virou rio Guaíba. De volta à Vila Liberdade, ela constatou que havia perdido tudo de dentro da casa cujas paredes, ao menos, ficaram de pé.
“Se parar para perceber, os compensados são esses pretos”, Mary alisa a parede da residência. “Isso aqui se chama compensado naval. É resto de madeira que um senhor vende para a comunidade a preço de banana, porque é usado. A maioria das casas da volta são feitas desse compensado. Eu creio muito que isso ajudou”, explica.
Para reconstruir a vida, a família contou com auxílios do governo – como o Auxílio Reconstrução e o Volta por Cima –, mas principalmente com a solidariedade das pessoas. A Associação Desabafa foi uma das responsáveis pela organização da comunidade na luta por moradia.
Liderança na comunidade, Mary também ajudava a distribuir marmitas da cozinha solidária do MTST. Foram 250 refeições por dia durante quase um ano. “Na primeira casa que a gente limpou, colocamos um colchão que ganhamos do abrigo. Conseguimos um fogãozinho, todo mundo comia junto”, relata. “A gente foi dividindo, sabe?”.
Mary se reergueu junto da família e, na medida possível, a vida seguiu. Uma de suas filhas, Andressa, 25 anos, está grávida. A sobrinha Ketlyn completou 5 anos na semana passada e diz que quer ser professora de matemática. Mas a matriarca ainda está abalada: “Tem um bem maior que foi perdido na enchente, que é o psicológico das pessoas. Isso o governo não vê. Eu passei muitos meses sonhando com aquilo, acordando assustada. Fotos da minha mãe, que faleceu faz 6 anos, é uma coisa que não tem volta. Fotos da minha filha quando era pequena. Perder um bem financeiro, beleza. Mas tem pessoas perdendo a vida, perdendo lembranças”.
Em Porto Alegre, um mapeamento realizado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM) em 2022 e complementado em 2024 revela que os perímetros de risco hidrológico somam 5,5 km² . Estima-se que há 177 mil pessoas residentes nos setores censitários sobrepostos a eles. No caso da Vila Liberdade, tanto a proximidade com o Guaíba quanto o arroio que passa em frente às casas contribuíram para a tragédia. Mary diz que a obra do “valão” começou somente este ano e está evoluindo de forma muito lenta.
Mesmo com os problemas, Mary não quer sair dali e não é a única a pensar assim. Ela sabe dos riscos, mas gostaria que o poder público investisse em melhores condições para poder continuar na Vila Liberdade.
“A gente ouve tanta coisa e tem medo que esse sonho não aconteça. É como se arrancassem o sonho da pessoa e obrigassem ela a sair da sua terra de origem. Pô, aqui é nosso trabalho. Aqui é o colégio das nossas crianças, sabe?”, desabafa. “Por que as portas das comportas estão até hoje estouradas? Estão esperando nós corrermos mais um risco? Por que é que tanto tempo depois resolveram mexer nas portas, porque aconteceu a enchente? Todo mundo sabe que aquilo ali nunca teve uma manutenção”.
Assim como diversos moradores da região, Mary trabalhava com reciclagem até pouco tempo atrás, quando conseguiu o primeiro emprego de carteira assinada. O estudo do Instituto Pólis revela que boa parte dos afetados pela inundação em Porto Alegre eram catadores.
Ir morar em outro local, para parte desses trabalhadores, significaria ter que mudar de ofício. “Como que eu vou te dar uma Compra Assistida e dizer para ti vai comprar [casa em] um condomínio? Onde é que tu vai fazer o teu trabalho? Tem pessoas que vão para o condomínio que estão falando ‘eu quero voltar’. Porque nem todo mundo tem carteira assinada. Mas é o lugar onde as pessoas vivem. Então por que não vir aqui e construir umas casas decentes?”, questiona Mary.
Não é só a força da água que pode empurrar os moradores para fora da Vila Liberdade. A especulação imobiliária é intensa na região próxima à Arena do Grêmio, construção imponente que contrasta com a pobreza ao redor. O Instituto Pólis revela, na pesquisa recente, que os bairros Farrapos, Floresta, Humaitá, Navegantes e São Geraldo – que conformam o 4º Distrito – vêm recebendo obras e ações governamentais que não foram suficientes para proteger a região dos efeitos da enchente e também têm promovido sua valorização imobiliária.
A sutil pressão para abandonar a área não passa despercebida para Mary. “Isso aqui é a entrada da cidade. A gente está falando de um local que pegou um valor enorme. Tu acha que eles vão querer ver quem aqui? Nós, negros, pobres? Eles querem nos expulsar daqui. Eles te dão um valor [de auxílio] que tu tem que comprar uma casa no interior. Querem nos tirar da visão”, salienta.
É o que a especialista Naira define como capitalismo de desastre. “Quando acontece uma catástrofe, muitas pessoas ficam desalojadas desabrigadas, e a especulação imobiliária entra em campo. As pessoas voltam para moradias em áreas de risco, o que aprofunda ainda mais a desigualdade, ou são forçadas a se deslocar”.
Mesmo gremista fanática, Mary não vê vantagem em ser vizinha da Arena. Ela acredita que as sonhadas melhorias podem vir somente se a expulsão dos moradores humildes se concretizar. Descreve a gentrificação de forma simples: “Eles querem trazer os grandes, os chiques, botar boutique, botar shopping, para quando tiver dia de jogo. E por que não podem arrumar aqui onde eu gosto de estar?”, argumenta. “A gente chegou aqui antes da Arena. Se a Vila Liberdade fica perto do Rio, a Arena também fica”, pontua.
A ação da Prefeitura na Vila dos Papeleiros, quando os catadores tiveram seu material de trabalho recolhido em julho deste ano, ainda reverbera em Mary mesmo que ela tenha trocado de profissão. Ela reconhece o papel fundamental do antigo ofício e afirma: “o que aconteceu na enchente tem tudo a ver com o lixo”.
“Nós não somos ‘lixeiros’, nós somos médicos da natureza. A enchente que ocorreu foi por causa do lixo que é largado, e a gente está ajudando a natureza, fazendo um serviço de graça. É muito lixo por aí”, detalha. “Tu acha que a prefeitura tem capacidade de recolher toneladas e toneladas de lixo? Ninguém sabe fazer isso melhor do que nós, porque nós descobrimos sozinhos. Isso aqui salvou muitas vidas. Eu criei minhas filhas com o trabalho da reciclagem. O que aconteceu nessa enchente tem tudo a ver com a reciclagem. Tem tudo a ver com a falta de manutenção”.
Enquanto pessoas como Mary desempenham um trabalho fundamental, alguns dos principais responsáveis pela crise climática que afetou diretamente a Vila Liberdade não querem pagar a conta. Direto da Cop30 em Belém, Naira disse ao Sul21 que essa conta seria paga em forma de financiamento climático ao qual os países ricos resistem em aderir.
A Oxfam Brasil, organização para a qual Naira trabalha, analisou que o Plano Safra recebe um aporte muito maior do que o Fundo Clima, por exemplo. O segundo é que é acionado em tragédias como a que acometeu o Rio Grande do Sul.
“A prioridade orçamentária está indo para outro lugar, porque os países do Sul Global não recebem financiamento público. E, quando recebem, é em forma de débito e empréstimo. O que a gente cobra na Cop30 é que o financiamento seja em forma de reparação”, explica Naira. “A lógica colonialista ainda está presente nas dinâmicas de negociação. Estamos pressionando os países a não negociar, a não tolerar que grupos historicamente negligenciados fiquem fora dos textos finais, especialmente no que se refere ao financiamento climático”.
As negociações mundiais avançando ou não, ainda há o que fazer no âmbito local. O professor Maurício Paixão, do IPH, acredita que a inclusão nos ambientes decisórios pode fazer a diferença na vida de gente como Mary e sua família.
“Quando se fala em meio ambiente, a gente fala na importância da biodiversidade – por que não se faz essa mesma avaliação quando se trata do ambiente político, por exemplo? Quanto maior a diversidade, seja ela étnica, de gênero, das mais diferentes representações, mais rico vai ser aquele ambiente, mais demandas podem ser contempladas e mais soluções inovadoras a gente vai ter”, pondera.
—
