Comunidades Tupinikim vão oficializar rejeição ao Acordo do Rio Doce

Posição coletiva vai ser tema de reuniões em aldeias de Aracruz na próxima semana

Por Mariah Friedrich, Século Diário

Os indígenas Tupinikim de Irajá, Caieiras Velha e Pau Brasil vão se reunir na próxima semana, entre segunda e quarta-feira (9 e 11), nas aldeias de Aracruz, no norte do Estado, com a Defensoria Pública da União (DPU), o Ministério Público Federal (MPF) e representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), para formalizar oficialmente a rejeição aos termos da repactuação relacionada ao crime socioambiental da Samarco/Vale-BHP. As comunidades concentram 80% da população indígena Tupinikim do município.

Os encontros marcam uma etapa decisiva do processo de deliberação interna das comunidades sobre o chamado Novo Acordo Rio Doce (NARD), especialmente em relação ao Anexo 3, que trata da destinação de recursos financeiros para os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. O povo Tupinikim denuncia a falta de transparência nos critérios de indenização, a rejeição de estudos técnicos aprovados pelas comunidades, e a não realização da obrigatória consulta livre, prévia e informada durante a repactuação.

As aldeias rejeitam os termos do pacto e do Anexo 3, que prevê a destinação de R$ 8 bilhões para os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, sendo R$ 1,59 bilhão para os Tupinikim e Guarani de Aracruz e R$ 108 milhões para o povo Puri, em Minas Gerais.

Além do debate sobre a repactuação, a Juventude Tupinikim tem criticado a criminalização da mobilização contra o acordo que ocupou o ramal Piraque-açu, da ferrovia Vitória-Minas, da Vale, em trecho dentro do território indígena, contra as violações cometidas pelas empresas e por reparação integral dos impactos ainda enfrentados após dez anos do rompimento da barragem em Mariana (MG), em 2015.

A situação se agravou por decisões judiciais recentes impedindo mobilizações e pela emissão de uma certidão judicial para registrar o cumprimento da ordem de desobstrução da ferrovia, como afirmam as representações do movimento. O grupo diz que o documento tenta individualizar responsabilidades pela mobilização. Apesar de ser uma luta coletiva, a certidão aponta duas lideranças como principais interlocutoras durante a ação de desobstrução da linha férrea, denunciam os indígenas.

“Na desobstrução da linha estavam presentes a DPU e a Funai, que fizeram o papel de intermediação. Além disso, outras pessoas da comunidade falaram, tiveram voz ativa. Não foram apenas duas pessoas. Mas o oficial decidiu tentar criminalizar somente essas duas”, afirmou uma das porta-vozes do movimento, que não quer se identificar para evitar represálias. “São muitos pontos nessa certidão que evidenciam como a Justiça tem tomado um lado dentro desse processo. E é claro que o lado que vem sendo tomado é o da Vale”, completa.

Outro ponto criticado diz respeito à entrada de agentes públicos e forças policiais no acampamento indígena, o que, segundo a Juventude Tupinikim, não estava previsto no objeto da ação judicial, que se restringia à desobstrução da ferrovia. “Em nenhum momento houve convite para eles entrarem no acampamento. O objeto da ação era a linha férrea, não havia necessidade de adentrar o acampamento. Mesmo assim, eles entraram sem convite e sem consentimento”, relata. De acordo com a liderança, a presença de policiais dentro do acampamento representou uma violação grave do território indígena e gerou momentos de tensão com a comunidade.

A certidão judicial ainda sustenta que teria havido um “aceite” para a entrada no acampamento, versão que é rebatida pelo movimento. A Juventude Tupinikim aponta que houve apenas a concordância para que o oficial realizasse a leitura do documento, já que ele se encontrava no interior do acampamento.

Para o coletivo, o trecho mais grave da certidão é aquele em que o oficial de justiça relata ter buscado informações com funcionários da própria Vale, autora da ação judicial, para identificar as pessoas que atuaram como interlocutoras durante a mobilização. A prática é vista como uma tentativa explícita de criminalização.

Diante desse cenário, os encontros dos dias 9, 10 e 11 são vistos pelas aldeias como um momento estratégico para reafirmar a rejeição ao acordo e denunciar às instituições de Justiça o que classificam como um processo contínuo de violação de direitos. Para a Juventude Tupinikim, a luta segue sendo coletiva e o território permanece mobilizado, apesar das decisões judiciais. “Nossa luta não é de uma ou duas pessoas. É uma luta coletiva. E não vamos aceitar tentativas de intimidação ou criminalização para nos silenciar”, conclui a porta-voz.

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