Madeira, Tapajós e Tocantins são artérias de água e vida. Nutrem a biodiversidade e os povos da Amazônia. A privatização pode reduzi-los a rotas mortas, para escoar soja e minérios. Os indígenas resistem. Está na hora de derrubar o Decreto 12.600
Escrevo navegando contra a corrente.
Antes de partir convido quem queira navegar comigo. Começo pelo Rio Madeira, partindo de Porto Velho até Nazaré, comunidade ribeirinha situada a mais de 100 quilômetros da sede do município. Foi antes da pandemia de Covid, quando fui para participar de um encontro de Museologia Social. Ali, o rio é parente, água que cozinha, que banha, que alimenta. São festas, memórias do tempo da borracha, identidade cultural amazônica, resistência. No caminho, dragas de mineração. Muitas, alocadas lado a lado a quase perder a conta. O barulho do motor, os garimpeiros separando ouro de cascalho, o mercúrio ficando no leito.
Vi aquelas cenas com tristeza, horas a fio. Um mês antes o rio Madeira havia subido dezessete metros sobre o seu leito normal. Uma devastação que deixou marcas, plantações arrasadas, casas com marca d’água até o teto, ribanceiras assoladas, encostas desabadas, troncos flutuando às margens. Uma enchente provocada. Daí pensei em um proverbio antigo, que ouvi de ribeirinhos de outro rio, o Tietê de São Paulo, cantadores do cururu: “Deus criou a cheia dos rios, o homem, a enchente.”. Como tantos desastres, aquela cheia dantesca não havia sido natural. Rio acima, as Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau haviam mudado o fluxo das águas. Por conta das fortes chuvas rio acima, as águas represadas foram liberadas de uma única vez.
O rio havia inundado tudo em questão de horas, mal dando tempo para os ribeirinhos se protegerem, muitos perderam móveis, a criação. Nos dias de permanência no encontro, banho no igarapé, troca de ideias e o imaginário amazônico. Na volta, antes de entrar no barco, desequilibrei-me e caí no rio barrento em que foi transformado o Madeira. Tripulação e passageiros ficaram preocupados, mas foi bom, eu tinha que mergulhar naquele rio. Foi susto e batizado.
Voltei atento, contando novamente as dragas, imaginando o ouro extraído e o mercúrio a empestear o leito. Também pude avistar alguns botos acompanhando a embarcação. Um momento de alegria, assim como a visão das melancias transportadas nos pequenos barcos ribeirinhos.
Passados dez anos, sei que as dragas para extração de ouro continuam lá; dizem que em menor quantidade, felizmente, mas ainda assim seguem derramando mercúrio no leito do rio. E há outras dragas, mais industriais, agora o objetivo é para aprofundar o leito para agilizar o escoamento de mercadorias. Quais? Soja, milho, carnes… Não há melancias nem frutas da mata, nem mandioca, essas continuam com baixo valor e seguem transportadas em canoas. Mas os grãos que vêm das imensas plantações do Centro-Oeste precisam de barcaças enormes e calado profundo. É preciso aumentar o lucro até que alcancem aos portos do Amazônia e os destinos além-mar.
Mais soja, mais milho, mais carnes…
Mais dinheiro, mais ganâncias e desigualdades.
E o rio a virar estrada da ambição. Dragagem parece engenharia neutra. Não é. O fundo do Madeira, como o do rio Tapajós, carrega mercúrio acumulado por décadas de garimpo. Garimpo que nada mais deixou a não ser exploração e intoxicação. Revolver o leito significa reintroduzir esse metal pesado no fio d’água, contaminando flora e fauna aquática. O mercúrio, no contato com as bactérias, é transformado em metilmercúrio, uma potente neurotoxina ingerida pelos peixes e depois acumulada no tecido desses. E quanto maior o peixe, mais toxina é acumulada. A neurotoxina atinge sangue e cérebro, também a placenta, esse organismo temporário que se forma no útero para sustentar o feto. Pela placenta o feto recebe oxigênio e nutrientes. Com o mercúrio dentro do corpo, no lugar de filtrar resíduos, a placenta irá infiltrá-los com veneno. Ë uma bioacumulação em toda cadeia alimentar, dos peixes pequenos aos grandes e desses aos humanos, aos que estão a nascer também.
Toda cadeia alimentar é contaminada, ouro que vira morte e desolação. Diversas pesquisas em saúde pública já identificaram elevados níveis de mercúrio entre as muitas comunidades amazônicas, sobretudo ribeirinhas e indígenas. Impactos neurológicos a atingirem pessoas, ainda mais as crianças. Os frios dados estatísticos se transformam em tremor na mão de indígenas e ribeirinhos. Isso as planilhas jamais serão capazes de descrever. Comprometido o feto, o bebê nasce com dificuldades sensoriais e de locomoção. O andar cambaleante, a fala arrastada, os tremores, a perda de audição ou visão, tudo isso acontece em quem é contaminado por mercúrio. É preciso separar ouro de cascalho. E o que sobra é jogado fora.
Mas, quem se importa?
São ribeirinhos perdidos na floresta perdida.
As águas, as matas, tem que dar passagem ao lucro descomunal.
Crianças que jamais iremos ver, quando adultos, se um dia forem vistos, talvez alguém diga: “- que gente atrasada, nem sabem andar, mal falam, sequer olham nos olhos do interlocutor. Falta-lhes progresso!” Esse alguém irá virar o rosto e seguir em marcha ao que ele julga progresso.
Enquanto navego em texto os números do agronegócio também me acompanham. O Brasil exporta aproximadamente US$ 170 bilhões por ano em produtos agropecuários. Para ordem de grandeza o número aproximado já é o suficiente. Diferente dos números da cobiça, quando falamos de gente é necessário ser preciso, por isso descrevo o dano descrito acima. É o que o dinheiro provoca.
Navegando tortuosamente, volto ao Agro. Cerca de metade da pauta exportadora nacional tem origem na grande plantação. Em meus tempos de colégio aprendi que o modelo colonial de exploração era baseado nas Plantation; passados séculos, o nome mudou para Agro, mas sob o mesmo modelo. A soja é campeã. Mais de 50% das exportações do grão passam por grandes tradings globais. Entre elas, a Cargill (logo vou chegar no porto dela), gigante do agronegócio multinacional, propriedade de trinta e cinco bilionários. Sim, trinta e cinco pessoas que nem sabemos o nome, que nunca pisaram nessa terra nem navegaram em seus rios, acumulando mais de um bilhão de dólares cada uma. Exemplifico pela Cargill, mas outras, como Bunge ou chinesas, não são diferentes dela. Apenas essa empresa responde por aproximadamente 16% das operações de exportação do agronegócio brasileiro. Coisa de R$ 126 bilhões em 2023, e lucro anunciado de R$ 2,4 bilhões. Anunciado e declarado foi isso, mas suspeito que o lucro é maior. Enfim…
Navegando um pouco mais nas informações fui procurar o investimento anunciado pela empresa para 2024 no Brasil: R$ 1,7 bilhão. Anunciado com pompa, como se fosse grande coisa, grande auxílio à nação brasileira. Investimento comemorado por empresários, governo e imprensa, ao menos pela imprensa que anuncia que o Agro é Pop. R$ 1,7 bilhão mal ultrapassa 1% do faturamento da empresa em um ano. Investimento em logística, porque para tecnologia e inovação o aporte é quase zero. Afinal, o modelo vigente é o mesmo que garante o lucro há quinhentos anos de exploração, desde o tempo da Plantação. O lucro da Cargill (e de outras como ela) concentra-se na logística e na intermediação comercial global, como no tempo do Mercantilismo colonial.
O dano ambiental dispersa-se nas margens. E com forte subsídio do Estado. Quem paga é povo com seus tremores neurológicos e vidas devastadas. Na safra de 2024 o Agronegócio recebeu mais de R$ 400 bilhões em crédito, além de estimados R$ 158 bilhões as renúncias fiscais. Parte considerável desse crédito e renúncias fiscais foi aplicada na compra de venenos e agrotóxicos (opa! “defensivos agrícolas”) proibidos em outras partes do mundo.
Só para comparar, sem desviar da navegação. Enquanto isso a agricultura familiar, que representa a maioria dos estabelecimentos rurais e 70% da produção dos alimentos consumidos no país, recebeu cerca de R$ 76 bilhões. Para os grandes, e os mais grandes, que nem vivem no Brasil, exportações desoneradas e cadeia de valor favorecida; para o povo, uns trocados e custos ambientais socializados (e com muita doença junto).
Toda essa vastidão de renúncias fiscais e crédito subsidiado sequer vem acompanhada de condicionantes ecológicas estruturantes. Ao contrário, não contentes, querem devastar mais. Para o avarento só a acumulação imediata importa. Expansão da fronteira até o último palmo de terra, a última árvore derrubada, a última gota d’água. Expandir a fronteira agrícola, particularmente na Amazônia, significa floresta derrubada, rios envenenados e gente arruinada.
Há um ciclo na devastação. Primeiro o comércio ilegal de madeira, depois o pasto para pecuária, depois a agricultura. Assim a terra se transforma em reserva de valor e a floresta torna-se etapa transitória da commodity. O solo exposto carrega sedimentos e agrotóxicos para os rios. Com menos árvores na floresta o ciclo hidrológico se altera. Diminuindo a evaporação produzida pelas árvores dissipam-se os milagrosos rios voadores. Esses que regulam as chuvas no estado de São Paulo e parte de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e oeste do Paraná. Não fosse a evaporação gerada pela floresta Amazônia, esse canto do mundo na faixa do trópico de Capricórnio seria um imenso deserto, como acontece com os demais territórios situados na mesma linha, o Atacama, Kalahari e Outback, também situados na mesma linha. No sudeste do Brasil é diferente unicamente porque há os rios e florestas amazônicos, os ventos do leste e os Andes a rebater as nuvens. Mas agora, o que começa na floresta derrubada e no rio envenenado termina na água contaminada e na seca programada.
Do Madeira desemboco no Tocantins.
Navegar de memória e imaginação permite esses pulos. Saio de Marabá até alcançar as margens do Tocantins em frente ao Pedral do Lourenção. Que berçário! Imensas pedras feito ilhas, por quilômetros de rio. Navego em um pequeno barco, atraco entre as pedras e caminho sobre o pedral. Pedras imensas, vivas. Que lugar de abundância! A pedra ali não é obstáculo, é arquivo geológico, berçário de peixes, saber acumulado na relação entre água e tempo.
Com amigos, estendemos uma faixa em defesa do Pedral. Eu estava com Silvana, amada companheira de viagens, a convite de Dan Baron e Manoela; foi um rio de encontros. Éramos poucos, foi há mais de uma década, navegamos em defesa daquelas rochas que são ventre, ameaçadas desde antes.
A cobiça não tem limites nem dá sossego para a vida, e insiste: quer implodir o Pedral!
A todo custo, não importa o que vão destruir. Querem o projeto de derrocamento explodindo as formações rochosas. Pela morte vão fazer passar gigantescos comboios de grãos. A questão não é a hidrovia, que existe nos três rios, barcos passam por lá desde há muito tempo, circulam mercadorias, há conexão de comunidades. O ponto é a ganância. Querem mais. Sempre querem mais. Barcaças enormes a atravessarem o rio até o dia em que não haverá mais rio. Só leito seco. Mas aí já haverão ganhado muito dinheiro e partirão para destruir outro lugar.
A palavra é técnica. O impacto, não. Alterar o Pedral do Lourenço significa modificar a hidrodinâmica do Tocantins, interferindo nos ciclos reprodutivos da ictiofauna (quem sabe escrevendo em palavra técnica eu serei melhor escutado). Isso vai reconfigurar os modos de vida dos ribeirinhos. Sem peixe não há vida ribeirinha, nem cultura da abundância.
Recordo da volta. No caminho por estrada avistei uma imensa gleba de moradia popular sendo construída com recursos do “Minha Casa, Minha Viva”. Centenas de casinhas apertadas, janelas mais ainda, dessas de alumínio, que abrem apenas uma aba, para entrar luz e ar uns 30 centímetros de largura por cinquenta de altura. Aquele calor na periferia de Marabá, casinhas com janelas minúsculas, sem luz natural, sem vento, sem árvores, sem quintal. No meio da floresta derrubada. Para lá iriam os ribeirinhos amputados do sistema ecológico complexo e abundante em que viviam. Tiveram o rio roubado. Foi assim também em Altamira após Belo Monte. Hoje a cidade é assolada por três epidemias: violência, pobreza e depressão.
Discursos oficiais, de todos os lados, havendo passado governos de diferentes matizes, alegam que é preciso explodir o Pedral para promover “destravamento logístico” e promover o desenvolvimento. Só se for (des)envolver, sair do envolvimento. Assassinato da natureza para gerar riqueza para uns poucos, os de sempre. Sempre os de sempre. Assassinando a natureza entulha-se as pessoas. Quando o Estado/Mercado dinamita a pedra, não está apenas abrindo caminho para barcaças, está escolhendo quem vai ganhar (poucos) e quem vai perder (muitos).
Do Tocantins navego ao Tapajós.
O sol incide oblíquo sobre a superfície verde-dourada. Alter do Chão, o Caribe amazônico e suas águas translúcidas entre a areia branca. Agora a tensão é presente.
Dessa vez navego de longe, alucinadamente procurando notícias em redes sociais, relatos de amigos. O governo federal editou o Decreto nº 12.600/2025 no mês de agosto do ano passado. O decreto qualifica trechos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), autorizando estudos e procedimentos para concessão dos rios à iniciativa privada, que poderá utilizá-los como hidrovias e outras fontes de negócio. Concessão, o novo nome para privatização.
Com o decreto do governo empresas privadas poderão estruturar, manter e explorar economicamente esses “corredores logísticos” para transporte de cargas, especialmente grãos e minérios. Rios vivos, comunidades de seres, reduzidos a corredores logísticos, modelagens de concessão, administração privada, dragagem revolvendo o leito dos rios, operação de trechos fluviais integrados ao “sistema nacional de exportação”. Nem se esconde a intenção: cobrança de passagem.
Tudo resumido em um ato administrativo, como se não existisse vida por lá. O Decreto nº 12.600/2025 precisa ser revogado imediatamente!
É ilegal. Descumpre a Convenção 169/1989 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tradicionais, do qual o Brasil é signatário. Pela Convenção da OIT é exigida “Consulta Livre, Prévia e Informada pelas populações afetadas por grandes empreendimentos. Para os que gostam de siglas: CLPI. Governos são obrigados a consultarem povos afetados por medidas e obras de impacto ambiental, a consulta tem que ser livre de manipulações, prévia a qualquer medida de impacto, e as comunidades precisam ser bem informadas sobre todos os efeitos resultantes do empreendimento. Revogar o decreto é um imperativo ético, civilizatório e legal.
Com essas três hidrovias abertas a grandes embarcações, haverá impactos cumulativos irreversíveis. A dragagem libera contaminação, o mercúrio, e não só, depositado no leito dos rios Madeira e Tapajós vai contaminar toda a comunidade de seres que habita aquele rio. O transporte de grande porte irá gerar pressão territorial, violência fundiária. Pensem nos “Parentinhos”, como os pequenos indígenas de vários povos se chamam. É tão lindo vê-los sorrindo, pulando n’água, brincando, se divertindo.
Revogar o Decreto nº 12.600/2025 não é favor, é obrigação do Estado.
Navego sob a lembrança de um outro Ato de governo, assinado há mais de vinte anos. Portaria nº 156 de 6 de julho de 2004, que constituiu o Programa Cultura Viva. Através dessa Portaria o Estado brasileiro chegou aos pontos mais afastados, esquecidos e silenciados do país, incluindo esses três rios. No Tapajós chegou com um Ponto de Cultura instalado em um barco, “Saúde e Alegria”; creio que ainda é Ponto de Cultura, mas, mesmo que não receba mais o reconhecimento oficial, o é na prática. Com “Saúde e Alegria” navega-se levando atendimento médico, cultura, palhaçaria, livros e leitura, comunicação comunitária.
No Tapajós, como em outros cantos e barrancos, Pontos de Cultura florescem como faróis ribeirinhos. O Estado chegou dispondo, não impondo. Cultura Viva não é ornamento; é infraestrutura social que fortalece autonomia e protagonismo sociocultural. Com ela o rio não é via de escoamento, é eixo de comunidade.
Dois decretos, dois programas de governo, dois tempos diferentes. Um mede sucesso por tonelada (de grão ou minério) exportada; outro, media o êxito por Saúde e Alegria no território.
Minha navegação vai chegando ao fim.
Não sem antes reafirmar: esse ato administrativo que privatiza rios (podem usar o eufemismo de concessão, mas é privatização) é um gesto político profundo de desprezo à dignidade da natureza e suas gentes. Rios são comunidades de seres, cheios de histórias, de vida, encontros, transformá-los em infraestrutura concedível e mercantilizada é de uma violência inominável.
Chego a Santarém. Um dia talvez escreva sobre a cerâmica ancestral e a confluência de vidas por essas bandas da abundância. Mas com esse ensaio navegante finalizo falando dos indígenas e ambientalistas que ocupam, neste momento, o porto da Cargill. É o povo em levante. São milhares, combativos e firmes. Como firmes e combativos foram seus ancestrais, que o colonizador só conseguiu derrotar no século XVIII. Protestam contra o decreto. Mas não é só contra o Decreto, lutam pela vida, deles e de todos nós.
A resistência indígena que acontece agora em Santarém, sobre a qual busco migalhas de informação, uma vez que a chamada grande imprensa impõe censura sobre os fatos, é, neste momento, o fato mais relevante de luta popular em 2026.
Distante. Como navegante de memória e imaginação, vejo rostos, ouço cantos e quero empunhar faixas lado a lado a eles. Gritar ao coração do mundo até fazer as pessoas escutarem o rio. Nesse momento meu grito é escrita silenciosa, mas expressa a mesma agonia dos parentes indígenas, da gente de consciência, que sabem que o rio [está] sendo ferido. Escrevo como lamento e grito para que outros escutem e se juntem a essa luta. Onde quer que estejam, na forma que puderem.
A resistência indígena representa a defesa de outra concepção de mundo. É Bem Viver. Não é acumulação, é distribuição. Para os povos do Tapajós, e todos os povos de raiz em todas as partes do planeta, o rio é sujeito de relação, comunidade de seres. E o Bem Viver que não cabe na planilha de exportação.
Entre o decreto governamental, a ganância empresarial e o canto indígena, há uma escolha civilizatória. Se transformarem o rio em ativo logístico, concedido, aprofundado, retificado, mercantilizado, o território vivo deixará de ser respeitado em seus limites ecológicos e culturais. Será via morta. E morreremos todos, até os que não vivem lá.
Os três rios contam a mesma história sob perspectivas distintas. No Madeira, o sedimento carregando mercúrio da avidez (que acontece também no Tapajós); no Tocantins, o pedral ameaçado pela explosão; no Tapajós, o povo em união, oferecendo os corpos como barragem ética para toda a nação.
Três rios.
Três advertências.
E uma pergunta que corre junto com a correnteza:
Que país queremos ser quando decidimos coisificar o destino das águas que nos mantêm vivos?
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Pedral do Lourenção no rio Tocantins: comunidades protestam para que os 35 km da formação rochosa natural que é também um grande berçário não seja implodida pelo Dnit, com impactos que devem se prolongar por pelo menos 300 km do rio. Foto: Antonio Cavalcante /Ascom Setran-PA.
