Junto com quilombolas, eles usam a agroecologia para trazer a água de volta e proteger a vida
Por Vitor Taveira, Século Diário
Localizadas lado a lado, Itaúnas e Angelim, em Conceição da Barra, norte do Estado são duas comunidades que carregam laços históricos. A primeira tornou-se nacionalmente conhecida como uma espécie de “Meca do forró”, se tornando ponto turístico, e a segunda foi reconhecida como quilombola, mas, como outras do entorno, espera há anos pela titulação das terras. Os laços humanos e territoriais levaram a uma nova aposta coletiva: a agroecologia para proteção e regeneração do entorno natural, impactado fortemente pelo monocultivo de eucalipto para produção de celulose, que empobreceu o solo, secou nascentes e contaminou água e terra com agrotóxicos.
É nesse contexto que o coletivo Terra do Bem aposta na agroecologia como alternativa e na agrofloresta como um método de retomada dos territórios tradicionais para proteger a vida, tanto humana como animal e vegetal. Criada em 2019, a iniciativa, que atua de forma mais informal do que uma associação ou cooperativa, vem realizando cursos, formações, mutirões e principalmente trocas entre agricultores das duas comunidades.
“O coletivo nasce da união de quilombolas, indígenas, pescadores e quem se sente povo tradicional. Queremos propor uma agenda global de debate, que envolve alimentação, água, saúde, mulheres, tudo que a agroecologia propõe”, diz João Guimarães, técnico agrícola, agricultor e um dos articuladores do coletivo.
O contexto não é nada fácil. Quase em paralelo ao início da atuação do coletivo, outro movimento surgiu na região, tensionando muito a disputa por terras. Algumas associações recém criadas apareceram de forma repentina loteando a região e vendendo terrenos de forma massiva para pessoas vindas de outras cidades e estados, avançando inclusive sobre os territórios reconhecidos como quilombolas. Esse movimento vem sendo investigado pela polícia e uma dessas ocupações já foi despejada.
Diante do descontrole em relação à terra, a Suzano (ex-Fibria, ex-Aracruz Celulose), empresa de celulose que domina os territórios da região, entrou com ações de reintegração de posse para retirar essas associações que ocupam terras nos arredores da estrada que liga Conceição da Barra a Itaúnas. Tudo isso chegou perto, muito perto das retomadas, que no Angelim levam 12 anos e em Itaúnas 10 anos, de territórios onde havia eucalipto e agora dezenas de famílias originárias da região vivem e praticam agricultura.
Acontece que nessa leva de pedidos de despejos entram também as áreas das antigas ocupações desses moradores tradicionais, de outra época e realidade, a partir da luta para retomar seus territórios ancestrais. Após receber notificação no início da última semana, o coletivo Terra do Bem chegou a solicitar oficialmente esclarecimentos à Suzano sobre a situação desta área contestada pelos moradores locais onde desenvolvem o Projeto Velha Antônia, já anteriormente enviado à Suzano, que haveria se comprometido a não interferir nesta área.
Velha Antônia é o nome de um dos vários córregos da região que haviam secado, sendo parte da bacia dos rios Angelim e Itaúnas. O reflorestamento de nove nascentes em projeto do Terra do Bem com apoio de entidades parceiras, junto com a ocupação do entorno com agroflorestas e agricultura, fizeram com que a água retomasse seu lugar, por vezes ocupando parte da pequena estrada de terra construídas que corta o antigo leito do rio.
“As pessoas ocupam o lugar em honra à sua ancestralidade, precisam ser consultadas, os alvos dessa ação devem ser comunicados para que seja explicitada de forma clara à população envolvida os devidos acontecimentos e isso não gere apreensão, tumulto e conflito entre os envolvidos do entorno”, pontuou o coletivo, preocupado com a possibilidade de reintegração de posse da área onde “constroem de maneira participativa uma proposta regenerativa para o território e assim se sentem no direito de defenderem seus trabalhos coletivos de preservação da natureza, segurança alimentar e nutricional, manejo e uso do território tradicional, plantando água, comida e floresta e projetando com esforço e dedicação mútua a construção de suas moradias e plantações com a intenção de se estabelecerem no local de forma digna e terem seus direitos reconhecidos e não deslegitimados por minorias no poder”.
Histórico e recuperação
No primeiro momento de implantação do eucalipto, entre 1960 e 1980, muitos moradores das regiões rurais acabaram expulsos ou pressionados a sair de suas áreas. Em Itaúnas, a partir da década de 1990, a vila ganha uma nova configuração com o impulso do turismo, chegada de novos moradores de maior poder aquisitivo e instalação de empreendimentos comerciais e turísticos. “Não se tem mais relação com a terra, apenas com as águas, mar e rio, mas depois o rio fica sem peixe pela poluição”, atesta João, nascido no Angelim mas casado com uma nativa de Itaúnas. Nos anos 80 nesta época de grande pressão, seu pai saiu do quilombo, foi morar em Itaúnas e trabalhar no setor de celulose.
Das décadas de prevalência do monocultivo de eucalipto, restou um solo muito empobrecido, aponta o técnico agrícola. “O desafio hoje nas áreas de retomada é a recuperação do solo e sem agrofloresta não há como recuperar o solo”, considera João Guimarães.
Thinio Camilo, mais conhecido como Bruno Itaúnas, é um dos que ocupa áreas de retomada com a o sistema agroflorestal, que alia a produção agrícola com o reflorestamento. Também utiliza técnicas sustentáveis para tratamento de seus resíduos domésticos para não gerar contaminação. Ele é filho de Dona Neuza e Ângelo Camillo, mais conhecido como Seu Caboclinho, mestre de um dos bailes de Ticumbi da região. Seus pais nasceram em Angelim mas também migraram e se estabeleceram em Itaúnas, onde Bruno nasceu e cresceu.
“Há relatório do Incra que comprova que nossos ancestrais andaram por aqui, já encontramos artefatos indígenas nesse território, isso comprova que havia presença aqui. Esse território é sagrado, para usufruto da comunidade. Itaúnas vem de comunidade indígena e quilombola, ainda possui benzedeiras, parteiras, curandeiras, danças folclóricas como ticumbi e jongo, que provam esses laços ancestrais”, conta.
Retomar o espaço para a vida da comunidade e recuperação da terra é visto como uma necessidade para manter o modo de vida tradicional e inclusive preservar essas manifestações da cultura popular, algumas únicas na região, que foram fortemente impactadas pela grande migração de décadas atrás com a implantação dos monocultivos de eucalipto e também de cana.
Os impactos de dez anos de retomada já são sentidos, segundo os envolvidos. As pessoas voltaram a circular pelas áreas que antes eram frequentadas apenas por tratores para plantar e extrair eucalipto. A água voltou e permite desenvolver melhor as plantações, com ajuda do uso de biomassa, compostagem e esterco para enriquecer o solo novamente. Além de flores, batata doce, mandioca, feijão guandu, acerola, moringa e outros plantios, sua terra também possui uma série de árvores nativas como pau-brasil, jequitibá, braúna, ipês, biriba e outras.
“O sistema de agrofloresta é ótimo para retomadas, pois é um dos principais indicadores de que você tem tempo no local”, diz. Ao contrário dos plantios agrícolas mais baixos e de ciclo curto, as árvores permanecem e vão crescendo, demarcando o tempo de estadia e ajudando a desenvolver o ecossistema.
O pesquisador e ornitólogo Frederico Pereira, também integrante do coletivo, é um dos que atesta cientificamente os resultados do reflorestamento na região, que provoca o retorno e estadia de animais, especialmente as aves, tema no qual é especialista. “Desde 2019 consegui ver aqui algumas outras espécies que não havia visto no plano de manejo elaborado pelo Parque de Itaúnas, o que indica que a regeneração têm atraído mais espécies de aves e mamíferos. Cheguei a ver um casal de jaguatiricas e também uma lontra no rio. A lontra é uma espécie guarda-chuva, sua presença indica que tem que ter um plano de ação para proteger todo mundo embaixo dela. É um registro positivo, que indica que é importante ter essa área para reflorestamento e não para o plantio de eucalipto, muitas aves migratórias utilizam as árvores da região”, considera.
Frederico sonha com a construção de um plano para reintrodução da arara vermelha na região, espécie que era muito comum segundo registros de ecologistas e pesquisadores décadas atrás. É um trabalho de médio a longo prazo, mas ele acredita que dentro de 15 anos seria possível fazer a primeira soltura caso seja realmente trabalhado o projeto com os animais em paralelo com a regeneração por meio das agroflorestas.
Bruno Itaúnas acredita que é preciso criar um cinturão verde para conectar toda região entorno do rio e suas nascentes com vegetação. Conta que desde que se estabeleceu na terra e começou o trabalho de regeneração já avistou coelhos, jiboias, quatis, teiús, entre outros animais que transitam pela região. Também se alegra quando vê ciclistas realizando passeios ecológicos em trilhas nas áreas recuperadas e acredita no ecoturismo como uma grande possibilidade para preservação e renda no local.
Ele alerta para situações como da vila de Arraial D’Ajuda, na Bahia, onde o território foi tomado por pessoas de fora. Bruno acredita que apesar da força do turismo e das casas de veraneio, Itaúnas ainda preserva sua essência e mantém uma cultura tradicional. “A tendência é que essas pessoas vindas de fora recentemente contem nossas histórias”, diz. Para evitar isso, acredita que é preciso garantir aos nativos espaço para sobrevivência, inclusive com acesso à terra e aos modos de vida tradicionais que foram inviabilizados, para que possam manter as condições de sobrevivência e manutenção da cultura.
São milhares de visitantes de vários estados que passam pela vila durante ocasiões como o festival de forró, que volta a acontecer em julho próximo, mas não fazem ideia do impacto dos monocultivos para a população local, nem de que além do forró, Itaúnas e seu entorno guardam diversas manifestações culturais muito tradicionais, sempre com muita dificuldade diante dos impactos da modernidade.
Bruno Itaúnas acredita que os turistas precisam saber e entender sobre essa realidade, e acredita que eventos como o festival trazem oportunidade de mostrar isso, assim como o investimento em projetos de ecoturismo e turismo rural e de base comunitária, para que visitantes possam dialogar diretamente com moradores antigos para saber mais sobre o local. Itaúnas não pode ser apenas uma ilha de visitação, mas o centro de uma área de proteção da natureza para proteção da vida em seu sentido mais amplo, acredita.
—
Foto: Vitor Taveira
