Cidades e comunidades como ecossistemas de resiliência: a urgência de uma COP dos territórios

Rafael Reis*, Brasil de Fato

A realização da COP30, em 2025, na cidade de Belém do Pará, representa um marco histórico e simbólico. Pela primeira vez, a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) será sediada na Amazônia, bioma central para o equilíbrio climático planetário.

Contudo, mais do que um gesto político de descentralização, este momento impõe um desafio: fazer da COP um espaço de escuta real das comunidades e dos territórios que vivenciam cotidianamente os efeitos da crise climática.

A emergência climática é também uma emergência social. As populações mais vulneráveis são as primeiras a sentir os impactos do aquecimento global, da escassez hídrica e da perda de biodiversidade. Nas cidades brasileiras, as periferias urbanas, as ocupações e as comunidades em situação de rua enfrentam ondas de calor sem infraestrutura de proteção, alagamentos recorrentes e ausência de serviços básicos.

No campo, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e agricultores familiares são pressionados pelo desmatamento, pela grilagem e pelo avanço de modelos predatórios de produção.

Essa realidade revela que não há justiça climática sem justiça social. Políticas públicas de mitigação e adaptação precisam dialogar com a diversidade territorial e cultural do país, reconhecendo que o Brasil é formado por múltiplos ecossistemas, modos de vida e saberes. A centralização das decisões em gabinetes técnicos ou em negociações diplomáticas distantes da vida real limita a efetividade das respostas e reproduz desigualdades históricas.

As soluções mais inovadoras e sustentáveis para enfrentar a crise climática têm emergido, cada vez mais, de baixo para cima. São práticas comunitárias, coletivas e locais que, mesmo sem grandes orçamentos, produzem impactos concretos na resiliência ambiental e social dos territórios.

Um exemplo emblemático está no Setor Comercial Sul (SCS), em Brasília. Tradicionalmente marcado por processos de degradação urbana e exclusão social, o SCS vem sendo reocupado por coletivos, artistas e organizações sociais que o transformam em um laboratório vivo de sustentabilidade urbana e cidadania. Projetos como o Banheiro Comunitário, a Feira No Setor e o Co-Laboratório de Design Circular promovem o reuso de materiais, a gestão comunitária de espaços públicos, a geração de renda solidária e o fortalecimento dos vínculos sociais.

Essas experiências demonstram que as cidades também são ecossistemas e que a transformação socioambiental passa por novas formas de governança urbana, baseadas na cooperação, na economia circular e na corresponsabilidade entre Estado e sociedade civil.

A Amazônia não se encerra em suas fronteiras geográficas, ela se expressa nos mercados populares, nas feiras agroecológicas, nas redes de economia solidária e nos coletivos culturais das cidades. Assim, a COP30 em Belém deve ser pensada não apenas como um evento internacional na Amazônia, mas como um chamado para repensar o país inteiro a partir de seus territórios vivos.

As respostas climáticas eficazes dependem da valorização dos saberes locais e comunitários, do fortalecimento das redes de base e da construção de políticas públicas territorializadas. Isso exige uma nova arquitetura de governança: descentralizada, participativa e multiescalar, que integre governos locais, universidades, movimentos sociais e organizações comunitárias em torno de agendas comuns.

A COP30 tem a oportunidade de consolidar uma virada epistemológica: passar de uma governança climática centrada em indicadores e metas abstratas para uma política do território e da vida. Isso implica reconhecer que comunidades que reciclam, cultivam hortas, restauram nascentes, ocupam espaços públicos e produzem cultura estão, de fato, implementando políticas climáticas cotidianas.

Essas práticas, ainda invisibilizadas nos fóruns internacionais, representam um patrimônio imaterial da humanidade em tempos de crise. Ouvir essas vozes é condição para construir estratégias que sejam socialmente justas, ambientalmente sustentáveis e culturalmente enraizadas.

A COP que se aproxima deve, portanto, colocar os territórios no centro da agenda climática. Do coração da Amazônia às periferias urbanas, do Setor Comercial Sul aos becos e margens do país, é nos territórios que o futuro está sendo disputado — e é deles que podem emergir as respostas mais potentes para a reconstrução ecológica e democrática do planeta.

Editado por: Clivia Mesquita

*Rafael Reis é gestor em Políticas Públicas e coordenador-geral do Instituto Cultural e Social No Setor.

Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil

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