Quando o sangue é derramado em qualquer operação policial, a voz do agente segue tendo valor de prova quase absoluto em relação a todos os outros relatos. Essa boa vontade excessiva com a polícia tem nome e sobrenome jurídico: fé pública
Matheus de Moura e Thales Cruz, Le Monde diplomatique
Nota-se, em algum momento entre a infância e a adolescência, que há, na forma como a luz reflete em nossas peles, algo que dita o lugar que ocupamos na sociedade. É caminhando pelas ruas gélidas de um inverno em Florianópolis ou sentindo os órgãos serem esmagados pelos outros corpos num ônibus atolado de São Gonçalo no calor dissipado do fim de tarde de veraneio fluminense que, eventualmente, você se entende enquanto o “outro”. Um outro que equivale a mais de 50% da população; o negro, preto, pardo, marrom, retinto, jambo, enfim um personagem racial no teatro de poder do cotidiano brasileiro. Quando a ficha cai, o sentimento de estranheza para com a polícia se aflora. Os olhares suspeitos, a sensação de que o coração deverá sair pela boca, de que é irremediável o conflito celeste entre sua vida ensimesmada, seguindo reto para um objetivo obscuro, e a vida dele, que veste uma botina grossa, um uniforme ridiculamente quente para nosso espectro tropical-subtropical e carrega consigo um brinquedo de furar moletom. É quando o medo da polícia, que supostamente deveria protegê-lo, quando o asco pelo fardado ultrapassa mera noção midiática e ganha significado pleno que você entende, mesmo que sem sabê-lo, que a polícia não detém “monopólio legítimo da violência”, que de legítimo há pouco, a depender do caso. Continue lendo “Como a polícia utiliza a fé pública para matar e lucrar”