Deise Alves e Cláudio Esteves criaram um modelo que salvou os Yanomami, entre os anos 1990 e o início dos 2000, e que servia de barreira ao garimpo. Em vez de reconhecimento, tiveram seu nome e sua vida destruídos e hoje devem 85 milhões de reais ao poder público
por MALU DELGADO, em Sumaúma
A cena histórica em que o cacique Kayapó Raoni Metuktire sobe a rampa do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro de 2023, despertou entre os indigenistas no Brasil uma esperança: os atos contínuos do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), que culminariam na acusação de genocídio dos povos originários, chegavam ao fim. Para a médica Deise Alves Francisco, o simbolismo da presença de Raoni na posse de Luiz Inácio Lula da Silva, para seu terceiro mandato como presidente, catalisou ainda outras emoções em série: em 1989, quando o cacique era levado pelo cantor Sting aos palcos da Europa, Estados Unidos e Japão, em defesa dos direitos indígenas, a então recém-formada tomou a decisão que mudaria sua vida e sua carreira. “Era final dos anos 1980, e eu estava na Espanha, entre Madri e Barcelona. A minha ideia era fazer uma especialização em acupuntura. Quando eu vi o Raoni, eu falei: não, eu tenho que voltar ao Brasil e trabalhar com saúde indígena. E voltei”, lembra. Já para o médico Cláudio Esteves de Oliveira, a clareza sobre sua vocação veio anos antes, numa viagem ao Nordeste em que ele levou na bagagem um exemplar de Quarup, o livro clássico de Antonio Callado. Depois de ter desistido da carreira de engenheiro e ter passado em concurso público para trabalhar na alfândega do Rio de Janeiro, foi a literatura que guiou seus passos a um caminho inusitado: “Eu gostava muito de viajar, era mochileiro, e quando li Quarup fiquei com a ideia fixa de que eu queria conhecer os índios. E a maneira de conhecer os índios seria fazer medicina, que seria útil para eles naquele momento. Eu seria médico para trabalhar com os índios. E foi por essa razão que eu fiz medicina”. Continue lendo “De Copérnico a Kafka. Ou como o Estado puniu os médicos que revolucionaram a saúde indígena no Brasil: a história da Urihi”