Índios deixam invisibilidade e lutam para retomar terras

Comunidades que antes negavam identidade, agora, se organizam para recuperar história e espaço

Luciene Câmara – O Tempo

Próximo ao povoado de Ibitira, em Martinho Campos, na região Centro-Oeste de Minas, um cemitério guarda corpos de índios Kaxixó que morreram de “barriga de bexiga preta”, como se chamava o envenenamento no século passado. Os que escaparam perderam suas terras, foram explorados e levados como escravos para trabalhar em Goiás. Outros ficaram, mas tiveram que negar a própria identidade para fugir do preconceito e da morte. Hoje, os descendentes desse povo são reconhecidos como grupo indígena e, embora estejam crescendo em número, lutam para recuperar sua história e seu espaço em território mineiro.

No Estado, assim como em todo o Brasil, os povos indígenas foram, década após década, desaparecendo de áreas tradicionais. No livro “Indígenas de Minas Gerais”, do historiador Oiliam José – usado como referência em pesquisas do Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (Cedefes) –, há registros de que 82 etnias ocupavam Minas na segunda metade do século XVI. Os dados são imprecisos, e não há relato de quantos indivíduos seriam, mas se sabe que eles eram nômades ou seminômades e estavam em todo o território.

Hoje, segundo levantamento mais atualizado da sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Estado, o número caiu 78%. São ao menos 18 etnias, que somam 15.405 pessoas. “Houve um grande massacre dos indígenas. Vieram também as doenças da Europa, às quais eles não tinham imunidade. Vários mantiveram sua identidade em segredo e sobreviviam como trabalhadores”, relata o historiador e indigenista da Funai em Minas, Pablo Camargo.

Expansão

Nos últimos anos, entretanto, a população indígena vem crescendo, muito porque as pesquisas (e a contagem) melhoraram, mas também porque mais pessoas estão se reconhecendo como tal, os chamados “índios emergentes”, que se unem aos parentes para resgatar sua história e retomar as terras de origem.

O livro “Povos Indígenas no Brasil 1980”, primeira edição produzida pelo Instituto Socioambiental, referência de informações na área, cita que, dos 5 milhões de indígenas da época do descobrimento do Brasil, restaram 227 mil em 1980, ligados a 150 povos. Já a mais recente edição da publicação, lançada no mês passado e referente a dados compilados entre 2011 e 2016, cita 715.213 pessoas e 252 grupos – o IBGE calcula quase 900 mil índios.

“Um fenômeno está acontecendo, não só no Brasil. Várias comunidades que não se reconheciam como indígenas por toda a história de massacre e preconceito estão retomando sua identidade”, afirmou a editora responsável pela publicação, Fany Ricardo.

Com o aumento da população, cresce também a violência e as tentativas de restringir os direitos territoriais. No último fim de semana, pelo menos 13 índios da etnia gamela foram atacados com tiros e facadas por pistoleiros ligados a fazendeiros na cidade de Viana, a 214 km de São Luiz (MA). Ao menos três ficaram feridos gravemente, e um deles teria tido as mãos decepadas.

“O momento é muito difícil para nós. Querem desconstruir nossa fé, nosso modo de vida, nosso direito à terra e à autodeclaração”, concluiu a índia Kambiwa Avelin Buniacá, socióloga e representante do Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas.

Mudança

No Legislativo, tramita a PEC 215, que quer transferir do Executivo federal para o Congresso a competência de demarcar terras indígenas, além de mais de cem proposições relacionadas.

Demissão e cortes geram crise na Funai

Fundação Nacional do Índio (Funai), criada em 1967 para proteger direitos previstos na Constituição, passa por uma crise, especialmente nos últimos meses. Anteontem, o presidente do órgão, Antônio Fernandes, foi demitido, segundo ele, por barrar indicações políticas que não tinham compromisso com a causa indígena. O governo federal alega que foi por problemas de gestão.

Ligada ao Ministério da Justiça, a Funai teve o orçamento reduzido em 44% em abril – de R$ 107,9 milhões para R$ 60,7 milhões.

Foto: Símbolo. A índia Kaxixó Liderjane Gomes da Mata, 39, preserva tradições em aldeia de Martinho Campos.

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