Portugal: “Quero a oportunidade de provar que posso fazer igual aos brancos”

Em dez anos, 20% das queixas à Comissão contra a Discriminação Racial foram sobre situações laborais. Em circunstâncias iguais no emprego, há preferência pelos brancos, mostram estudos. Amélia Costa Injai conta que só foi chamada a entrevista de emprego por não saberem que era negra

Por Joana Gorjão Henriques, no Público

De todas as zonas em Portugal continental, o Alentejo é a área geográfica com menor diversidade. Em Reguengos quase não se vêem negros na rua, nem em serviços que impliquem interacção com clientes.

Dos doze entrevistados aleatoriamente, de várias idades e de ambos os sexos, praticamente todos identificam a existência de racismo em Portugal. Nove reconhecem que há vantagens em ser branco, e vários associam essa vantagem ao emprego. Justificam: um negro “tem mais dificuldade em arranjar emprego”, “se houver um branco é ele o escolhido”.

Na verdade, as respostas neste breve exercício revelam uma percepção das desigualdades que não foge à realidade dos números: as posições na hierarquia profissional da população portuguesa e dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) são desiguais. Em 2015 o desemprego era de 33% para os cidadãos de países africanos e de 12,4% para os portugueses.

Não é possível aferir as desigualdades raciais no emprego pois em Portugal não se podem recolher dados étnico-raciais. Por isso, há sociólogos que as aferem através da população PALOP, uma limitação por se associar imigração a uma categoria racial, mas também a única maneira de ter uma aproximação da realidade – mas o Governo está a estudar essa possibilidade.

Por ser negra e portuguesa Amélia Costa Injai, 40 anos, não entraria nas estatísticas do emprego dos PALOP. A sua história é paradigmática do tipo de discriminação pela qual um profissional qualificado passa, desconstruindo o mito de que o racismo desaparece quando a condição socio-económica é mais alta.

O sotaque

Quando enviou o seu currículo para um banco em Lisboa, Amélia não tinha ainda o apelido guineense do marido, Injai, tinha um nome “tipicamente português”, Costa.

Tempos depois recebeu um telefonema do director de recursos humanos para ir a uma entrevista. “Falámos um bom bocado ao telefone sobre a minha experiência porque tinha acabado o curso de Ciências da Comunicação, que não tem directamente a ver com a banca”, conta num jardim no Lumiar, em Lisboa.

Na altura não pôs fotografia no CV mas especificou que era natural da Guiné-Bissau, com nacionalidade portuguesa. Quando chegou à entrevista, o director de recursos humanos olhou para ela e Amélia reparou que ficou surpreso. “Percebi que estava à espera de outra coisa. Foi vincado ele ter ficado surpreso.” A reacção “mexeu” com Amélia, mas a conversa “até correu bem”. Perguntou-lhe sobre os livros que estava a ler, que contasse as histórias. Seria depois entrevistada por mais dois directores. Foi contratada.

Mas um dia, quando passou a ter contrato efectivo, resolveu falar com o director sobre o facto de ele ter “franzido o olho” no momento em que a viu.

— Mostrou surpresa, porquê?, perguntou-lhe Amélia.

— A pessoa com quem falei ao telefone e a pessoa que vi não me pareciam a mesma. A Amélia não tem sotaque nenhum, não estava à espera que fosse africana, confessou ele.

Nessa conversa, o director acabou “por assumir” que se ela tivesse posto a fotografia no CV provavelmente não a teria chamado para a entrevista.

— Mas isso não é correcto, disse Amélia. Teriam perdido uma excelente profissional numa área em que até precisavam.

A verdade é que naquele banco, percebeu depois, havia a política de não contratarem “africanos nem brasileiros”. “Por causa do sotaque”, justificou o chefe.

A desculpa do sotaque foi a maneira de encobrir “o estigma do racismo”, que “nas pessoas com alguma escolaridade são mais disfarçados”, analisa. “Lido melhor com o racismo às claras do que com o camuflado. Muitas vezes as pessoas diziam-me: ‘mas não sou nada racista’. Obviamente que não…” ironiza.

Em 12 anos, Amélia Costa, que trabalhou como gestora comercial, cruzou-se com dois colegas afrodescendentes, isto entre centenas de trabalhadores. “Chegou uma altura que tratava o assunto de forma natural. Dizia que era a preta mais gira do prédio. Uma colega respondia: ‘Pudera, és a única’.”

Associação negativa

Há meses, um estudo da Universidade de Sheffield, a partir do Project Implicit, da Universidade de Harvard — que tem um site onde milhares de pessoas participam num teste online que mede atitudes raciais —, mostrou que os europeus brancos associavam mais rapidamente os rostos negros a ideias negativas. Isto é a conclusão dos resultados de testes feitos por cerca de 145 mil europeus brancos, entre 2002 e 2015. O teste online pode ser feito por qualquer pessoa e em qualquer altura (e aconselhamos).

Nesse estudo de Sheffield, Portugal aparece com um dos índices mais altos de discriminação: tem 4,05 pontos, quando o máximo são 4,5 (num universo de mais de 1800 respostas). Resultados como este vão no mesmo sentido daqueles que aparecem no programa de investigação Atitudes Sociais dos Portugueses, no qual o psicólogo social Jorge Vala participou, e onde os portugueses têm dos mais altos níveis de racismo.

São ainda suportados por estudos de Jorge Vala feitos em Portugal que concluem que, “em igualdade de circunstâncias, as pessoas preferem seleccionar uma pessoa branca do que uma pessoa negra para um emprego” (ver entrevista).

Os efeitos de preconceitos não se notam apenas nos processos de selecção, mas em diversas interacções sociais. Muitas vezes Amélia sentiu “que tinha que trabalhar mais do que os outros” no banco apenas por ser negra. Isso instigou-a a “criar alguma arrogância”: “Sempre estive no top de avaliações”, afirma hoje, já depois de ter saído do banco há dois anos. “Fiz diferença, não pela cunha, que não tinha, mas pelo meu trabalho, a única coisa que podia apresentar”, comenta a hoje empresária.

Lamenta que a ausência de negros em lugares de destaque na sociedade portuguesa seja tão óbvia. “Não nos dão sequer oportunidade de nos conhecerem. Os empresários são os responsáveis deste atraso”, critica.

Há várias áreas em que isso se nota, por exemplo, nos media, onde não é comum aparecerem jornalistas negros. Em Portugal, os negros estão no “back office”, nas fábricas, nas cozinhas, nos supermercados, descreve.

Segundo o Censos 2011, há quatro vezes mais portugueses em lugares de representação do poder, de dirigentes ou de gestores, e cinco vezes mais portugueses em actividades intelectuais ou científicas do que cidadãos dos PALOP. Ou seja, 3% versus 0,8% no primeiro caso e 6,1% versus 1,3% no segundo.

Mas a diferença da média de licenciados em três das nacionalidades dos PALOP mais representadas em Portugal (Cabo Verde, Angola e Guiné-Bissau), comparadas com a dos portugueses, é de mais de metade (5% no primeiro caso contra 12% no segundo).

Já em relação às profissões não qualificadas, a ordem inverte-se: há três vezes mais cidadãos dos PALOP nesta categoria (16%) do que portugueses (5%).

As remunerações médias mensais também apresentam grandes diferenças, com uma taxa de discrepância face aos outros trabalhadores de mais de 36% no caso dos são-tomenses e guineenses e de quase 35% no caso dos cabo-verdianos (o valor de referência com o qual são comparados é 912,18 euros mensais).

À procura de Amélia

Um dia, uma cliente, a quem Amélia Costa tratava regularmente de assuntos por telefone, foi ao banco entregar flores para lhe agradecer o profissionalismo. “Quando chego à frente dela, ela quase queria levar as flores de volta”, conta. “Aquilo até mexeu com o meu colega que estava no balcão. Ela acabou por dar as flores com muita dificuldade.” Disse directamente que não estava à espera que Amélia “fosse…”

“Africana?”, perguntou Amélia.

Amélia acabou por dar as flores aos colegas. “Quantas vezes tinha que ir ao balcão, punha as mãos à frente e a pessoa ainda estava a olhar à procura da dra. Amélia…”, conta.

Das colegas ouviu: “Tu é só a cor, pareces as tias de Cascais, às vezes a gente até esquece.” No fundo, o que isto significa é que “os portugueses não aceitam de forma natural os africanos”, analisa. “Não aceitam nos detalhes, nos pormenores.”

A mudança deve ser feita “de cima”, acredita: pelos empresários, que deveriam contratar mais negros, pelos intelectuais. “Mas a elite só aceita quando o preto faz a diferença pela positiva”, lamenta.

Defende quotas, políticas de incentivo. Diz que a Assembleia da República deveria falar mais sobre o assunto e ter a política de contratar mais negros. “Talvez assim comece a mudar” e os afrodescendentes passem a concorrer a “empregos numa situação de igualdade”, acredita. “Quero que me dêem a oportunidade de provar que eu também posso fazer igual aos brancos.”

Das 759 queixas recebidas pela Comissão para a igualdade e Contra a Discriminação Racial entre 2005 e 2015, 19,4% eram sobre situações laborais.

Amélia Costa Injai trabalhou durante 12 anos num banco. Foto: Mario Lopes Pereira

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