Alunos racistas são legalmente criminosos. Mas e a universidade, como fica?

Tania Pacheco

A Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-Rio) anunciou para os próximos dias os resultados dos trabalhos da Comissão Disciplinar que investiga os episódios de racismo do último fim de semana, durante os Jogos Jurídicos Estaduais, realizados em Petrópolis. Se existe ainda alguém que ignora o assunto, nos dois dias do evento, a chamada “Atlética” do curso de Direito da PUC e seus torcedores praticaram atos de racismo contra atletas de outras universidades – a UCP, UERJ e UFF. Jogaram cascas de banana, chamaram atletas de macaca, dançaram como animais, pretensamente imitando estudantes negros das outras faculdades. Tudo edificante. Tudo como se deve esperar de jovens universitários inteligentes, estudiosos, decentes e sadios. Tudo de acordo com nossas expectativas em relação a pessoas que têm como sonho vir a praticar a Justiça.

Integrantes da campanha Jogos sem Racismo (aqui) cobraram um posicionamento da Liga Jurídica Estadual, promotora do evento, e conseguiram que a chamada “Atlética” da PUC Rio fosse punida: perderam o campeonato e não poderão participar dos jogos do ano que vem (mais detalhes aqui). E daí?

Em todas as matérias que li até o momento sobre o assunto, o que percebo é uma justíssima indignação quanto ao comportamento criminoso (lembremos sempre que racismo é crime) da delegação. A própria universidade vem deixando claro, desde o primeiro comunicado, que combaterá “qualquer forma de manifestação de racismo por meio de punições disciplinares”. Por enquanto e até a Comissão Disciplinar tornar públicas suas conclusões,  não temos como saber quais serão essas punições e, até mesmo, se elas acontecerão, uma vez que já circula a alegação de que racista era a torcida, que não teria relação com a universidade. Pergunta cínica: ainda que acompanhasse a PUC Rio, torcesse pelos atletas da PUC Rio e integrasse a delegação PUC Rio, seria a torcida constituída por estudantes da UERJ?

Não é isso que mais me interessa, entretanto. Afinal, o que devemos esperar (e cobrar) da Pontifícia Universidade Católica será apenas algum ‘castigo’ para seus alunos e alunas?

Uma universidade deve ser acima de tudo um local de formação, no seu sentido mais amplo. Qual a concepção de mundo desses futuros advogados, promotores, defensores, juízes? Que tipo de Justiça eles praticarão? Quero sempre crer no ser humano e acreditar que alguns, assim que ‘crescerem’, talvez se tornem pessoas dignas. Mas não tenho dúvida qualquer dúvida de que a maioria dos integrantes desse grupelho irá se alinhar com os seres que mandam esterilizar mulheres negras e pobres (aqui), mandam e esquecem na prisão provisória centenas de milhares de jovens negros, tornam-se cegos para a violência policial nas favelas e periferias, ignoram torturas e assassinatos, e tratam “índios” de forma equivalente, senão pior.

Sei que essa miséria não é de hoje. Acabo, aliás, de postar matéria escrita por Eliana Alves Cruz no The Intercept Brasil (aqui) na qual ela comenta episódio de racismo em outros jogos de Direito, dessa vez por parte de estudantes da UFRJ, em 2005. Também sei, aliás, que outros cursos têm manifestações igualmente repugnantes, com especial destaque para algumas faculdades de Medicina (aqui). Mas minha pergunta, aqui e agora, está restrita a este caso e é pontual: até que ponto podemos e devemos cobrar da PUC Rio sua responsabilidade quanto à formação ética desses estudantes? O que tem seu corpo docente a dizer a respeito de utopias, de visões de mundo? A Direção da Faculdade de Direito considera que o corpo discente deve discutir Direitos Humanos, com destaque para indígenas e quilombolas? Qual a centralidade ocupada por esse tipo de preocupações na formulação do curso, cadeiras e ementas? Ou tudo se resume a técnicas, alfarrábios e canudos?

Afinal, até que ponto ser racista – ou seja: ser legalmente criminoso – deveria impedir alguém de se formar em Direito? Mais: de conseguir registro na OAB? Mais ainda: de prestar concurso público e levar amanhã seus preconceitos e sua concepção de mundo tacanha e canalha para os tribunais, para posições onde terá poder para destruir vidas, inclusive?

Talvez nenhuma dessas perguntas tenha sentido. Estamos no Brasil, onde os Supremos Juízes têm figuras semelhantes a escravos para puxar, segurar e empurrar suas cadeiras enquanto se sentam, só para ficarmos com essa imagem que fala muito de um poder simbólico que deveria ser inadmissível. Então, talvez, de fato, esse grupelho racista é que esteja certo e fazendo direitinho sua lição de casa…

Mas me recuso a acreditar que não haja mais saída para nós, para este País e – até! – para eles.

Em tempo: recebi algumas das músicas da torcida da PUC Rio. Em meio a outras decididamente repugnantes, uma delas com certeza não por acaso afirma:

“Eu não tenho medo do MP

Congo eu vou te esculachar

Se a Federal quer me prender

O Gilmar Mendes vai soltar”.

Congo, para quem não sabe, é como eles chamam a UERJ, por ter sido a primeira universidade a praticar o regime das cotas raciais.

 

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