Há um mês em hotel, atingidos pela Vale denunciam desassistência

Moradoras afirmam estar sem seus pertences e sem renda. Vale teria negado inclusive remédios

Rafaella Dotta, Brasil de Fato

Trinta dias de pedinte e desabrigada. Mesmo tendo sua casa própria, é assim que Guiomar Marotti Dumont descreve o seu último mês, desde que um alarme tocou na barragem B3/B4 da Vale, em São Sebastião das Águas Claras, e ela teve que sair às pressas da sua residência. Eram 20h de 16 de fevereiro de 2019, um sábado, dia que mudou a vida de cerca de 3 mil pessoas.

O distrito conhecido como Macacos, em Nova Lima (MG), foi uma das localidades em que a sirene de rompimento de barragem tocou logo após o crime de Brumadinho, em 25 de janeiro. Em Macacos, Barão de Cocais e Itatiaiuçu as barragens não romperam, mas foram acionadas pois o fator de risco aumentou de 1 para 2, o que já prevê a retirada dos moradores pela Defesa Civil. As três barragens são da mineradora Vale.

Susto e abandono

Em Macacos, a voz que é transmitida junto com a sirene gritava que a barragem havia estourado e que aquilo não era um treinamento. Guiomar e a filha, com um recém-nascido no colo, se desesperaram ao perceber que não sabiam para onde ir. “Não tinha uma rota de fuga. A Vale vinha prometendo fazer isso e não foi feito. Não sabíamos nada, saímos de casa sem rumo, na estrada de terra, chovendo”, conta, aflita.

A televisão ficou ligada, as luzes acesas e assim a casa foi abandonada às pressas. O genro de Guiomar voltou na casa dias depois e a Defesa Civil deu 20 minutos para que ele pegasse alguns pertences. A família está em um hotel em Belo Horizonte, onde recebe alimentação e precisa requerer ao atendimento da Vale sempre que precisa de remédios, produtos de higiene, atendimento médico e roupas. Coisas que, diz Guiomar, passaram a ser negadas.

“No que se refere à Vale, no dia em que você chega é cheio de promessa, mas de repente você se vê como uma pedinte, tudo o que eu peço é por protocolo e com risco de ser negado, inclusive atendimento médico”, descreve.

Vale se nega a comprar remédios

O mesmo afirma a moradora Eloísa Cardoso, cujo filho, de 17 anos, adquiriu infecção intestinal se alimentando no hotel em que estão abrigados desde 16 de fevereiro. Eloísa levou a receita ao atendimento da Vale, mas a mineradora se negou a comprar os remédios. “Em casa eu tenho todos os remédios, mas aqui não tenho nada. Meu filho tem gastrite nervosa e chegou a evacuar sangue”, indigna-se.

Famílias perderam a renda

O desespero das famílias é maior para aquelas que perderam também a sua renda. Débora Marotti Dumont tem um restaurante com o marido, próximo à zona evacuada, e que há um mês não rende nada. “Desde Brumadinho o movimento já tinha caído na cidade, mas depois do dia que a sirene tocou o turismo desapareceu”, conta Débora. “A gente está no zero, com as contas vencendo, e não tem de onde tirar”.

A moradora ainda denuncia a omissão por parte da Vale. Nas palavras dela, os representantes da empresa estiveram no hotel no primeiro dia, quando garantiram que a mineradora “resolveria tudo”. Depois disso a relação é através de uma assistente ou do 0800, e quase nada foi resolvido.

Tatiana Silva Mota, moradora de Macacos e integrante do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), avalia que a atuação da Vale “revitimiza” os atingidos, ou seja, traz novos prejuízos às vítimas. O movimento estimula a organização de assembleias de moradores e a ação coletiva com os órgãos públicos.

“A gente não quer ter esse tipo de contato com a Vale, que ela seja interlocutora dela mesma. Queremos decidir as coisas em assembleia, com a comunidade, quais são as demandas e que o Ministério Público notifique a Vale para ela cumprir com os seus deveres”, defende. “A Vale é sim uma criminosa e a gente ter que lidar com ela para buscar informações e acolhimento é um erro”.

Respostas

A Vale, por meio da sua assessoria, garante que está em contato com órgãos públicos e com as pessoas atingidas, “se esforçando para resolver com celeridade cada uma das demandas apresentadas”. Porém, não respondeu sobre os problemas denunciados pelas atingidas. Afiança ainda que uma política de indenização será firmada até o final de março.

Segundo a Defesa Civil, a barragem B3/B4 da Mina Mar Azul continua classificada como nível de risco 2 e cerca de 200 pessoas estão fora de suas casas. Os atingidos só poderão retornar quando a barragem diminuir seu fator de risco. A Vale afirma que instalou radar, câmeras acompanhadas em tempo real e as inspeções estão acontecendo duas vezes por dia. A barragem é uma das dez incluídas no plano de descomissionamento (desmontagem) anunciado pela empresa. Porém, a Vale não informa o prazo para que a situação volte ao normal.

Mães fazem greve e conseguem um novo local para escola dos filhos

As moradoras de Macacos se assustaram quando a prefeitura anunciou a volta das aulas em 18 de fevereiro, dois dias depois da sirene. A distância entre a Escola Municipal Rubem Costa Lima e o trajeto da lama da barragem Capão da Serra seria de 54 metros, caso aconteça um rompimento.

“As mães já sabiam da distância da escola em relação à barragem. A mudança do local da escola é uma demanda antiga da comunidade”, conta a professora de inglês Fernanda Tuna. “Quando houve essa evacuação, as mães se uniram e se tornaram a maior força popular em Macacos e reivindicam a mudança do local da escola”.

As crianças não compareceram às aulas até que, por intermédio do Ministério Público, a Prefeitura de Nova Lima e a Vale ficaram obrigadas a reformar o Intituto Kairós, que em 90 dias deverá estar funcionando como uma escola provisória. Ficam obrigadas também a construir uma escola permanente no bairro Capela Velha.

Edição: Joana Tavares.

Imagem: Guiomar e a filha, com um recém-nascido no colo, tiveram que sair de casa correndo após toque de sirene em Macacos / Foto: Rafaella Dotta

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