Brumadinho: Fiocruz faz balanço da Saúde 6 meses após desastre

Daniela Rangel, Agência Fiocruz de Notícias

“Há mais de três anos estamos enfrentando a lama, quem paga pelo crime são as próprias pessoas atingidas, é muita injustiça”, Mirella Santana, atingida pelo desastre em Mariana. “A minha única fonte de renda e sobrevivência se foi e, mesmo assim, todos os dias eu coloco os joelhos no chão para agradecer por não ter perdido ninguém da minha família, da minha horta tiraram 42 corpos”, Soraia Campos, agricultora, da Comissão dos Atingidos pelo desastre da Vale em Brumadinho. 

Os depoimentos dos atingidos, como eles próprios se denominam, são emocionantes e contundentes. Depois do desastre que destruiu vidas, famílias, cidades e meio ambiente, os sobreviventes das áreas atingidas lidam com a tristeza, as doenças e a poeira. As vítimas precisam, ainda, se entender com as empresas responsáveis pelas barragens que romperam, Vale, no caso de Brumadinho, em janeiro deste ano, e a Samarco, da barragem do Fundão, que atingiu a área do município de Mariana, em novembro de 2015.

Para fazer um balanço dos impactos, riscos e ações dos seis meses do desastre de Brumadinho, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) reuniu pesquisadores, profissionais da área de saúde, participantes de movimentos sociais, moradores das regiões afetadas, técnicos da Defesa Civil e representantes dos governos dos municípios atingidos durante dois dias (15 e 16/8) na Câmara Municipal de Brumadinho. “O comprometimento da Fiocruz não é só com a pesquisa, a área técnica, mas com a luta por direitos”, afirmou a presidente da Fundação, Nísia Trindade Lima, ao expressar sua solidariedade aos atingidos.

O seminário Desastre da Vale S.A. em Brumadinho: seis meses de impactos e ações contou com uma série de apresentações que mostraram como foi a resposta dos profissionais de saúde ao desastre. Depois do primeiro acidente, em Mariana, tanto o Ministério da Saúde quanto os órgãos municipais, além da própria Fiocruz, estavam mais preparados para dar uma resposta rápida à situação de emergência. Outro ponto ressaltado como essencial para que a tragédia não fosse maior foi a ampla cobertura do Programa de Saúde da Família dos locais atingidos, que em alguns municípios chegava a 100%.

Lições para a Saúde

O secretário de Saúde de Brumadinho, Junio de Araujo Alves, destacou a atuação dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), que, segundo ele, foram incansáveis: “É difícil ver o ser humano em sua plenitude hoje em dia e pudemos ver isso naquelas semanas, mesmo em meio a uma tragédia de proporções terríveis houve esse ponto positivo”. O secretário afirmou que o perfil epidemiológico da população local mudou em função do desastre e que o aumento de transtornos mentais é muito preocupante. “Estamos com uma distribuição de ansiolítico 80% maior que antes do acidente”, contou. 

O coordenador geral de Emergências em Saúde Pública da Secretaria de Vigilância em Saúde, Rodrigo Frutuoso, também falou da mudança epidemiológica, mas de Barra Longa, um dos municípios que foi assolado pela lama do rompimento da barragem de Mariana. “Parasitoses, dermatites, depressão, transtornos mentais, infecções das vias aéreas e alergias são alguns problemas que ainda hoje afetam a população da cidade. O que podemos dizer é que aprendemos em Barra Longa e pudemos evitar muitos problemas em Brumadinho”, afirmou Frutuoso.

A ideia é que as lições que ficam das respostas aos acidentes possam ajudar em outros momentos de emergência. A diretora do departamento de Saúde Ambiental, do Trabalhador e Vigilância das Emergências em Saúde Pública da Secretaria de Vigilância em Saúde, Daniela Buosi Rohlfs, explicou que os bombeiros que trabalharam e os que ainda trabalham, em meio à lama de Brumadinho, fazem exames frequentes: “O estudo de seguimento dos profissionais do Corpo de Bombeiros vai criar parâmetros para a exposição a substâncias tóxicas. Não há nada no Brasil nesse sentido”. 

Rohlfs lembrou que a preocupação inicial era com a qualidade da água do rio Paraopeba, que está imprópria e até hoje não pode ser utilizada para nenhuma atividade. “Atualmente, monitoramos as doenças e agravos que aconteceram a partir do acidente e sabemos que é preciso pensar em estratégias para ação em doenças mentais”, finalizou a diretora. Os representantes do Ministério da Saúde ressaltaram o trabalho em conjunto nos três níveis de governo foi fundamental para o acolhimento e atendimento aos atingidos, tanto logo após os desastres quanto no acompanhamento das vítimas.

No sentido de acumular conhecimento que possa ajudar em situações de desastres, será realizada uma pesquisa longitudinal para verificar as condições de vida, trabalho e saúde da população do município. Os habitantes de Brumadinho serão acompanhados por um período de 15 a 20 anos para o estudo, que foi lançado durante o evento e será coordenado pela Fiocruz. “Os dados mostram que após grandes tragédias a população atingida fica vulnerável a uma série de agravos e que os impactos mudam ao longo do tempo. Nosso objetivo, então, é produzir informação para que as redes de atenção à saúde possam se planejar, de forma a estar preparada para dar assistência a essas pessoas”, explica o pesquisador do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), Sérgio Viana Peixoto, coordenador do estudo.

Como reconstruir as cidades?

“Há indignação com o crime e o tempo todo pensamos em reconstrução. O que nos perguntamos é: como reconstruir com sustentabilidade, especialmente em Minas Gerais, tão dependente da mineração?”, o questionamento da diretora da Fiocruz Minas, Zélia Profeta da Luz, resume a principal questão econômica que os acidentes trouxeram para o estado. Os prefeitos de Mariana e Brumadinho, Duarte Júnior e Avimar de Melo Barcelos, respectivamente, participaram do encontro para falar sobre as dificuldades de diversificar a economia das cidades com outros tipos de investimentos.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Luiz Jardim de Moraes Wanderley, mostrou com seu estudo que o acidente foi motivado por questões de busca por maior lucro da Vale. Segundo Wanderley, a empresa trabalha com a previsão de exaustão das minas e, por isso, não investe em segurança: “Por que gastar melhorias das barragens se a mina vai exaurir?”, questionou. O professor também alertou para o fato de que a Vale detém não só o poder econômico, mas político, uma vez que a empresa financia campanhas em todas as eleições e tem um número grande de ex-funcionários em cargos públicos. “Quem propõe políticas públicas, quem regula, são pessoas ligadas à Vale. Romper barragem não é acidente, é padrão para as mineradoras”, disse Wanderley.

Os números dos desastres são assustadores. Diego Xavier, do Observatório do Clima da Fiocruz, apontou que 10% da população de Brumadinho foi afetada e 1% dos habitantes morreram devido ao acidente. Mas o que fica de mais impressionante mesmo são as histórias de quem perdeu tudo. “A partir do momento em que a barragem se rompe, acaba tudo, você não é mais nada, só atingida”, Simone Silva, de Barra Longa, município atingido pelo rompimento da barragem de Brumadinho.

Imagem: Fiocruz reuniu pesquisadores, profissionais da área de saúde, participantes de movimentos sociais, moradores das regiões afetadas, técnicos da Defesa Civil e representantes dos governos dos municípios atingidos (foto: Raul Lansky)

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