Brasileiros no exterior, uma frente contra o retrocesso

Avança resistência entre emigrados brazuca. Grupos de 40 países reúnem-se na Alemanha, para denunciar governo, exigir soberania nacional e o fim das agressões à Amazônia e povos indígenas

por Flavio Aguiar, em Outras Palavras

Começado no dia 16 de agosto, sexta-feira, em Berlim, e terminado no domingo, dia 18, o II Encontro Internacional da Frente de Brasileiras e Brasileiros pela Democracia e contra o Golpe (FIBRA), definiu 11 objetivos prioritários para seu programa de lutas pelos próximos dois anos.

Fundada oficialmente em seu primeiro encontro, em janeiro de 2017, em Amsterdã, a FIBRA reúne hoje mais de 80 organizações e movimentos em 40 países, na Europa, Estados Unidos, Canadá, América Latina, inclusive no Brasil, Israel e Austrália. Deste encontro participaram mais de 250 pessoas, vindas de todos aqueles recantos do mundo, das mais diferentes organizações unidas pela luta em defesa da democracia no Brasil.

A Fundação Rosa Luxemburgo, ligada ao Partido Die Linke, da Alemanha, acolheu a reunião, dando-lhe todo o apoio técnico e logístico. Participaram, como convidados, Marcia Tiburi, filósofa e escritora, Jean Wyllys, ex-deputado federal pelo PSOL, ambos hoje vivendo fora do Brasil devido a ameaças recebidas, Renata Souza, deputada estadual no Rio de Janeiro pelo PSOL, Breno Altman, jornalista, editor do site Opera Mundi, membro do Comitê Lula Livre no Brasil, e Maria Dantas, brasileira de nascimento, com cidadania espanhola, deputada do Congresso Espanhol pela Aliança de Esquerda Republicana da Catalunha. 

O sucesso de um encontro entre entidades tão díspares e heterogêneas só foi possível devido ao esforço metodológico das organizadoras do evento. Através das reuniões de cinco grupos de trabalho e das plenárias foi possível delinear onze objetivos delineadores das ações da FIBRA e suas organizações-membros e inúmeras ações decorrentes. Será impossível resenhar tudo aqui: são dezenas e dezenas de ações propostas, comentaremos algumas na medida do possível.

São objetivos da FIBRA nos próximos dois anos:

  1. Refletir sobre e divulgar o papel geopolítico do Brasil e sua situação pós-golpe e eleição de Jair Bolsonaro. Pretende-se, entre outras ações, mapear a presença de empresas multinacionais na economia brasileira e promover o conhecimento sobre a agricultura familiar (por exemplo) no Brasil.
  2. Lutar pela liberdade do ex-presidente Lula e de todos os presos políticos no país. Este foi um tema que atravessou todo o encontro, reafirmando a convicção de que a espinha dorsal da luta pela democracia no Brasil passa pela liberdade do ex-presidente e da denúncia da perseguição jurídica e mediática contra ele. Uma das ações aqui propostas é o encaminhamento por entidades e cidadãs e cidadãos de cartas à Transparency International, que deu seu prêmio de 2016 à Lava Jato, pedindo seu cancelamento, graças à série de evidencias e provas de que ela não passou de uma conspiração política acobertada pelo combate à corrupção, divulgada pelo site The Intercept e outras mídias.
  3. Consolidar a FIBRA como uma plataforma de união entre suas organizações e as lutas dos locais onde elas têm sede, como, por exemplo, a luta pelos direitos de imigrantes e refugiados na Europa, ameaçados pela crescente onda fascista que se alastra no mundo inteiro.
  4. Defesa intransigente dos Direitos Humanos, denunciando o fascismo, o racismo, todas as fobias contra grupos ameaçados, como LGBTIs, índios, quilombolas, mulheres alvos e vítimas de feminicídios, pobres, favelados, dentre outros.
  5. Combater o racismo e práticas coloniais e neocoloniais remanescentes e renascentes.
  6. Fortalecer o fomento da cultura e da consciência política. Lutar pelo direito à educação no Brasil.
  7. Dialogar com grupos religiosos de todas as procedências.
  8. Constituir-se num fórum permanente de solidariedade a migrantes, imigrantes e refugiados, tema este de grande relevância nos Estados Unidos e Europa.
  9. Defender o meio-ambiente e os direitos dos povos indígenas e outros povos tradicionais. Ressaltou-se à agressão à Amazônia, objeto de profunda preocupação no mundo inteiro. Duas publicações alemãs de grande prestígio, Der Spiegal e Die Zeit, pediram que o governo alemão adote represálias contra o Brasil. A Noruega e a Alemanha cancelaram o envio de verbas para proteção da Amazônia ao governo de Bolsonaro.
  10. Defender os direitos trabalhistas e a organização sindical.
  11. Lutar pela democratização da mídia.

A pauta é ambiciosa, mas atende à amplitude e variedade da composição da FIBRA. Durante o encontro foram realizadas diversas oficinas artísticas, abrangendo cinema, exposição de fotos, poesia, música, dança e teatro, com apresentações muito animadas nos intervalos dos debates. Também houve uma avaliação da situação brasileira, ressaltando que a capacidade de resistência demonstrada pela população é maior do que parece à primeira vista, com referência às grandes manifestações em defesa da educação, à greve geral de junho, a manifestação das margaridas, das mulheres e dos povos indígenas, além outras. Ressaltou-se em todos os momentos a importância de se criar uma frente democrática, neste momento em que as esquerdas e os movimentos populares estão na defensiva.

O encontro se encerrou com uma passeata que, saindo da sede da Fundação Rosa Luxemburgo, se dirigiu aos remanescentes do histórico Muro de Berlim nas proximidades, onde foi lida uma carta do ex-presidente Lula dirigida especialmente aos participantes são encontro. Tudo se encerrou com o grito unânime: Lula Livre!

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