À frente da Fiocruz e, depois, do Ministério da Saúde, Nísia Trindade protagonizou o enfrentamento à tragédia e a reconstrução posterior. Como os Sertões euclidianos, lança seu próprio “livro-vingador”, para analisar o genocídio e a resistência. E propõe: ainda há tempo para outro projeto de país. O texto abaixo é a Introdução, escrita por André Botelho, para o seu “Ainda há tempo”
Por André Botelho, em Outras Palavras
“Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver”
Gilberto Gil, “Tempo Rei”, 1984
No início da pandemia de Covid-19, divulguei, nas minhas listas de contatos pessoais do WhatsApp, páginas notáveis de Pedro Nava sobre o início da Gripe Espanhola no Rio de Janeiro. Uma forma de nos irmanarmos com nossos antepassados e tentar criar alguma perspectiva de sentido para um presente tão surpreendentemente inquietante. A morte à espreita. Gestos como esse se multiplicaram naqueles anos. Devo à Nísia Trindade Lima a apresentação desse trecho impressionante de Chão de ferro (1976), muito antes de me tornar especialista nas memórias do grande mineiro e renomado médico. Mal sabia o que viveríamos e o quanto o narrado, preso nas páginas de Nava, se soltaria e se multiplicaria em horror – com 700 mil vidas brasileiras ceifadas –, mas também em aperfeiçoamento da ciência, solidariedade e esperança de dias melhores.
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