Depoimentos sobre o ato Mulheres Unidas Contra Bolsonaro em uma cidade brasileira: uma aliança entre mulheres, indígenas, quilombolas e LGBTQI

Por Íris Morais Araújo, para Combate Racismo Ambiental

Ouvi menção ao ato Mulheres Unidas Contra Bolsonaro, realizado no último 29 de setembro em Diversitas (nome fictício) – cidade média-pequena, turística, com diversidade socioambiental e sem tradição de manifestações públicas –, por meio de uma das organizadoras do ato, amiga de longa data. Na semana que antecedeu o evento, ela me enviou áudios de whatsapp em que relatava as dificuldades encontradas pelas mulheres, indígenas, quilombolas e LGBTQI para realizar a manifestação.

Antes mesmo de saber do sucesso do evento – e, posteriormente, do acirramento das violências contra as manifestantes – avaliei que seria interessante pedir que algumas organizadoras gravassem depoimentos, um registro polifônico de motivações, sentidos e efeitos gerados pelo ato. Três organizadoras, um indígena e uma quilombola me enviaram, nos dias posteriores à manifestação, áudios de whatsapp ou depoimentos por escrito, os quais transcrevi e editei. Na primeira parte, estão as falas da quilombola, do indígena e de duas das organizadoras e na segunda parte está a fala mais longa que obtive, de uma das organizadoras:

Quilombola, mulher, idosa, liderança comunitária

Sou líder da comunidade quilombola que pertenço. Apoio o movimento das mulheres, indígenas, LGBTQI e quilombolas por que tenho medo do candidato Bolsonaro. Se ele ganhar vamos voltar no tempo, pois perderemos o pouco que conquistamos.

O candidato falou que somos vagabundos, nos comparou a gado pesado em arroba. Nós nos sentimos humilhados pelo jeito com que ele falou a nosso respeito. Eu nasci num quilombo e minha vida nunca foi fácil. Todos nós, quilombolas, trabalhamos para nosso sustento, ganhamos nosso dinheiro com suor do rosto, não tiramos nosso dinheiro de ninguém.

Existe uma lei que proíbe ofensas aos negros. Todo mundo é gente, todo mundo é humano… O país que precisa ter uma lei para as pessoas não serem racistas. Agora, imagina um homem que, mesmo com a lei, ele fala o que ele quer. Se esse homem ganha, todo mundo que precisa da lei pra respeitar a gente vai se sentir protegido por ele e não vai respeitar coisa nenhuma.

Sou mulher e negra: qual será meu destino se esse homem vencer as eleições?

Esse movimento não pode morrer. Temos que continuar juntos, protegermos uns aos outros. Se Bolsonaro ganhar, o Brasil volta muitos anos para trás.

Organizadora 1, mulher, adulta, microempresária

Eu havia decidido ir à manifestação na capital, pois não imaginava que havia mulheres se movimentando para realizar um ato mais perto de onde vivo. Eu me integrei ao comitê organizador de Diversitas: éramos quinze mulheres achando que o ato atrairia poucas dezenas de pessoas.

Mas o movimento tomou uma proporção enorme. O ato foi muito bem organizado, foram criadas comissões e cada organizadora se responsabilizou por diferentes tarefas. Eu corri atrás das faixas, fitas e flores para enfeitar o ato e também fiquei na comissão de segurança. A organização encaminhou ofícios à polícia, prefeitura e ao Detran. Fui ainda uma das encarregadas de dar carona aos indígenas: foi muito lindo vê-los participando!

A manifestação foi muito tranquila. Vi apenas um infiltrado, que a polícia logo tratou de retirar. Mas eu estava com medo de violência, só coloquei a camiseta e as fitas na hora do ato. Depois entrei no carro e fui pra casa.

Senti um orgulho imenso por poder colocar minha voz pra fora, com as outras mulheres, indígenas, quilombolas e LGBTQI numa cidade tão conservadora. Ter feito parte disso marcou minha alma profundamente e ver toda aquela diversidade só me provou que estou do lado certo da história!

Indígena, homem, jovem, liderança comunitária

Eu vou falar por que a gente é contra o Bolsonaro. Porque a gente vê o discurso que ele faz: ele afirma que não precisa de voto dos indígenas, dos negros, dos LGBTQI e outros. Ele tem razão, porque a gente não vai votar nele. Ele é racista e ele quer que a gente volte quando era a ditadura militar, e por isso ele não tem capacidade de governar um país.

Como votar em um candidato que fala que, se ele for eleito, não haverá mais nenhum centímetro de terra indígena? E isso é inaceitável. Ele fala que a gente não produz nada nas terras, isso não é verdade. E tem mais, a gente está respirando porque a gente preserva a natureza. É a natureza que dá ar, dá água, dá tudo que a gente precisa. Nas terras indígenas, a gente respeita muito a natureza, porque a natureza pra gente é sagrada. Tudo que a gente faz, vem da natureza. Por isso eu não vou votar nele. Ele não merece, ele não respeita a natureza. Ele não tem conhecimento.

E também não pode governar porque tudo pra ele é à base de arma. Ele fala que vai ter arma liberada pra todo mundo. Mas hoje em dia, mesmo com as armas não liberadas no Brasil, há muitas mortes com arma de fogo. Isso vai piorar a situação. Eu não falo isso só como indígena, e sim como cidadão, que a gente é também cidadão brasileiro.

Isso tudo resume porque não votar nele. E a gente tem que continuar a luta. Eles acha que nós somos minoria, mas não! Somos milhões de brasileiros. Nunca devemos nos desunir, se depender de nós não vamos nos desunir. Vamos gritar cada vez mais forte. Sempre e sempre. Indígena é massacrado, mulher é massacrada, LGBTQI é massacrado, quilombola é massacrado. Massacram a gente sozinhos, mas juntos somos fortes!

Organizadora 2, mulher, adulta, professora

A ideia de realizar uma manifestação em Diversitas ocorreu depois que derrubaram a página nacional Mulheres Unidas Contra Bolsonaro do Facebook. Eu e outras mulheres do Brasil nos sentimos desrespeitadas. Calaram nossa voz quando fizeram isso. Então eu encontrei uma amiga e propus que organizássemos algo em Diversitas, nem que fosse algo muito pequeno e simples. Aquela violência não podia passar batida, e nossas vozes precisavam estar também nas ruas.

Nós criamos um grupo de mulheres da cidade e, com o passar dos dias, o grupo foi crescendo pra centenas de apoiadoras. Várias queriam participar desse ato, pois se sentiam tão desrespeitadas quanto nós, mas não existia uma organização. Então elas iriam pra outras cidades, pra capital. Quando elas viram o grupo, elas ficaram radiantes, porque precisávamos mostrar a nossa voz na nossa região, na nossa cidade, mostrar que em Diversitas não compactuamos com o fascismo, com ódio, com o desrespeito. Nós criamos nosso núcleo de organização, fizemos várias reuniões e tivemos várias deliberações. E tudo ocorreu perfeitamente: um dos grandes elogios ao ato foi que a organização estava muito boa.

Na organização, nós buscamos muito a segurança. Vivemos tempos em que o retrocesso é permanente, e é muito complicado porque o Bolsonaro representa ideias que muitas pessoas aderem, como o ódio e a violência. Os apoiadores do candidato fizeram uma carreata no mesmo dia do nosso ato, eles estavam fazendo sinal de arma para quem passava perto deles. Felizmente não houve nenhuma ocorrência no ato, mas todos os cuidados foram tomados. A gente pediu para que quem viesse sozinha não viesse com a camiseta para não ser hostilizada, pra ela ter a integridade física respeitada, porque a gente sabe que quem prega o ódio não apenas prega, às vezes parte para a ação também.

Eu ainda não consigo mensurar em palavras o que foi o ato, ainda está caindo a minha ficha, foi fantástico, foi fenomenal. Os grupos sociais se reuniram, várias pessoas, de direita, de esquerda, indígenas, quilombolas, mulheres, a comunidade negra, LGBTQI, enfim, todos unidos declarando, erguendo sua voz, que o fascismo não tem vez na nossa cidade.

A nossa cidade é maravilhosa, a natureza já cuidou dela, e a gente precisa cuidar para que o ódio dos humanos não invada nossa cidade também. Nem o ódio, o preconceito, o machismo, o racismo, a homofobia. Várias pessoas vieram falar com a gente depois do ato, falaram que a cidade nunca tinha tido um ato em que a pluralidade estava tão presente. Foi um ato grande para a cidade, estimamos que tinham umas centenas de pessoas, foi um ato gigantesco, que as pessoas aqui nunca tinham visto. Foi uma vitória.

Além do ato, nós tivemos uma vitória da coletividade feminina da cidade. Tínhamos vários relatos de meninas que estavam com medo de ir, mas foram. Como o ato ocorreu sem maiores problemas, elas viram que nós podemos nos unir. Nós criamos também uma rede de apoio de mulheres, tivemos depoimentos nos nossos grupos que várias estavam se sentindo excluídas pela família, pelos amigos, eram xingadas. Nesse grupo, nesse núcleo, criamos um laço forte de apoio para passar por esse período de ódio. Nós fomos uma pétala na primavera feminista nacional, mas uma pétala muito importante. Nós, mulheres, através do feminismo, estamos parindo um novo mundo, onde só cabe paz, amor, respeito, onde as pessoas possam viver com dignidade. Em Diversitas eu tenho certeza que foi só o começo, que agora a gente tem um grupo forte que vai à luta por todas as mulheres e por todas as comunidades que infelizmente estão sendo afetadas com ódio a todo momento.

Organizadora 3, mulher, adulta, chef de cozinha

O movimento começou com amigas que formaram um grupo de mulheres e depois uma comissão organizadora. Nós fizemos um grupo no whatsapp e uma página no facebook. Várias pessoas foram se juntando nesses dois grupos, várias pró-Bolsonaro também, que ficavam sabendo de tudo que estávamos planejando. Num primeiro momento, nosso encontro seria num espaço grande aqui de Diversitas. Antes que anunciássemos isso publicamente, eles fizeram um enunciado oficial de que haveria um encontro deles no mesmo horário, no mesmo local. Nós nos reunimos de novo e percebemos que tinha alguém contando nossos planejamentos. Então começamos a olhar no Facebook as pessoas pró-Bolsonaro que estavam no grupo. Nós excluímos essas pessoas e montamos um grupo paralelo só da comissão, e passamos a falar apenas em reuniões presenciais. Começamos a colocar a informações na página do Facebook mais em cima da hora, para que eles não ficassem sabendo.

Os apoiadores do Bolsonaro fizeram o evento deles na mesma hora do que o nosso, uma carreata, e passando num local em que a gente estava também. O que aconteceu? Nós nos encontramos. Nós éramos um grupo muito maior que o deles. Eles começaram a buzinar. Só que as meninas do maracatu estavam no ato, e fizeram um barulho com aqueles tambores. Sumiram as buzinas! Começaram a bater tão forte que desistiram, pararam de buzinar. A gente conseguiu gritar e batucar mais alto! Eles foram abafados pelo som do maracatu, e o som das vozes de não sei quantas mulheres, muitas! Foi muito lindo, nós ficamos muito contentes com o resultado. Essa parte foi linda: as meninas do maracatu deram sangue, mostraram toda a força feminina, não se ouviam mais as buzinas!

O nosso movimento não foi apenas de mulheres, nós convidamos indígenas, quilombolas… A comunidade LGBTQI estava presente. Os rapazes LGBTQI quiseram ser nossos seguranças e  ficaram nas pontas da manifestação. Os indígenas que puderam ir levaram seus filhos e fizeram cartazes com dizeres #elenão na sua língua. Todo mundo falou ao microfone: indígenas, quilombolas, LGBTQI’s, mulheres negras, mulheres que foram presas na época da ditadura… Foi lindo!

Mas na hora que acabou o ato, eu fui pegar meu carro e nós da organização combinamos de nos encontrarmos num lugar pra comer e rachar o dinheiro, porque tudo foi por nossa conta, então a gente passou o chapéu entre as organizadoras para pagar as despesas. Eu fui sozinha e estava com a camiseta. Ninguém fez nada, mas passando por um bar, um cara ficou na porta com o braço cruzado, ficou olhando… intimidou! Eu fui andando com medo. Eu não me lembro de ter ficado assustada assim a não ser na época da ditadura, que a gente tinha esse medo. Em casa, depois do fim do ato, eu conversei com uma menina que passou pela carreata do Bolsonaro. Eles ficaram fazendo aquele símbolo para ela de atirar com os dedos, como se estivessem armados, metralhando… O pessoal está ameaçando muito.

Epílogo: áudios no dia do primeiro turno

A repercussão da nossa passeata está tendo um efeito terrível, as pessoas públicas, professoras, estão sofrendo discriminação nas escolas, está sendo difícil, grupos de mães que votam no Bolsonaro não querem que seus filhos tenham aula com determinadas professoras. Uma mãe escreveu na página do facebook de uma das participantes dizendo que a denunciaria na secretaria de educação.

Nós passamos com a camiseta e eles fazem símbolo com a mão, como se estivessem nos fuzilando. Estão xingando a gente de vacas, putas, vadias, desesperadas, encalhadas, horrorosas, histéricas, dizem que feministas são um câncer da humanidade. Estão tendo muitos casos assim, está sendo assustador. Nós combinamos que não iríamos reagir, descer no nível deles. Mas a cada hora vem um caso, cada hora alguém relata alguma violência. Tem uns jovens bem jovens mesmo com camisetas com símbolo da suástica, eles são os mais violentos, são os que mais fazem mímica de que vão nos metralhar. É bem triste, nossa! No dia da votação, uma das meninas do ato foi votar com a camiseta e parou num bar pra tomar café, teve que sair embrulhada pra não apanhar!

 

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