Debaixo do tapete da memória

Por Juliana Meato, em Minas não há mais

Para Cirleudo Cabral Monteza, da etnia Manchineri, morto com uma bala na cabeça, enquanto dormia no colo de sua mãe.

Para Maria Eduarda, que gostava de jogar vôlei e tinha apenas 13 anos.

Para Galeano, porque as veias ainda sangram.

Debaixo do tapete da memória
a cor é vermelha
o cheiro é quase milenar.
Mancha permanente de sangue
das cabeças explodidas 
a todo instante 
nas aldeias e favelas.

Desta terra,
brotam as sementes de urucum
esmagadas entre os dedos:
e quanto mais esmagadas,
mais vermelhas.

E esmagados também são aqueles
 — os verdadeiros donos da terra — 
que resistem nos campos de batalha
entre flechas
fuzis 
e facas
(sempre amoladas).

É também nesta terra 
invadida por silêncios consentidos
e emboscadas covardes
(sempre covardes) 
que nascem os terrores noturnos
e morrem o direito ao chão e à dignidade.

Mães cortadas 
de seus filhos
alvejados em becos
jogados em alto-mar

represálias
massacres
genocídios
garimpo de corpos
que jazem desovados
no fundo do rio

Daqui, o chão é indelevelmente vermelho
o cheiro é quase milenar 
e tinge as águas do oceano. 
Aqui, os mortos são varridos para 
debaixo do tapete da memória.

Imagem: blog Minas não há mais

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Joana Mauliet.

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