Análise sobre um ponto cego do debate recente sobre economia, voto e antipetismo. Quem está por cima vê ameaça a seu status. O precarizado quer subir. A direita os une. O elevador social não precisa descer para que alguém experimente a sensação de queda
No início dos anos 1990, Jorge Aragão lançou Identidade, samba que começava com os seguintes versos:
Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai
Era, antes de tudo, uma canção sobre racismo e identidade negra, mas a imagem do elevador captava algo mais amplo sobre a sociedade brasileira: lugares não servem apenas para acomodar pessoas; também dizem quem pode estar onde, ao lado de quem e em que condições. Mais de três décadas depois, parte daquilo que a canção reivindicava foi alcançada, sem que as hierarquias denunciadas por Aragão tenham desaparecido. Universidades se expandiram, o transporte aéreo se popularizou, direitos do trabalho doméstico foram ampliados e grupos historicamente mantidos em posições subalternizadas conquistaram maior presença e reconhecimento em espaços antes muito mais fechados. Em alguma medida, o elevador começou a parar em andares onde antes não parava.
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