Polícia impede entrada de indígenas na Câmara com gás e bombas

Eles iriam participar de audiência pública na Comissão de Agricultura para debater a produção agrícola indígena, mas foram barrados. Em contrapartida, atiraram pedras e paus em uma das entradas da Câmara. Um grupo, no entanto, conseguiu entrar para acompanhar o controverso debate. 

Segundo a coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Sônia Guajajara, apenas quem estava a favor do debate teve acesso ao Parlamento. “Na tal da conferência anti-indígena da agricultura, convocada pelos ruralistas, só entraram os arrendatários. As lideranças indígenas que vieram para contrapor esse absurdo foram impedidas de entrar e foram atacadas com bombas na frente do Congresso. Esse desgoverno quer mesmo é desterritorializar os povos indígenas. Estamos de volta aos anos 60. É a nova tentativa de reintegrar os povos indígenas à sociedade. Lembram-se dessa história?”, alertou Sônia.

A audiência, encabeçada pelo núcleo duro da bancada ruralista que tem interesse em arrendar as terras indígenas para ampliar suas monoculturas, foi deslegitimada por organizações e lideranças de várias regiões.

“Nilson Leitão, você está enganando índio. Você já tentou fazer isso na PEC 215 e agora está tentando de novo”, pontuou Paulinho Paiakan, liderança Kaiapó.

Nilson Leitão, que é um dos proponentes do debate, presidiu a comissão especial da PEC 215, que propõe passar para o Legislativo o poder de decidir sobre as demarcações de terras indígenas com a clara finalidade de frear o reconhecimento dos territórios destes povos; foi relator da CPI da Funai/Incra, que queria criminalizar antropólogos, indigenistas, chegando a propor a extinção da Funai; e é vice-presidente da comissão especial que analisa o PL 1610/96, que pretende liberar as terras indígenas para a exploração mineral.

“Sua real intenção é validar as propostas do agronegócio e do setor minerário para exploração econômica em terras indígenas. Eles estão querendo facilitar seu acesso aos territórios. É isso o que pretendem”, reforçou Sônia Guajajara.

“A soja está matando um ecossistema todinho para criar uma monocultura. Isso é sustentabilidade? Não! A sustentabilidade dos povos indígenas está na integração da nossa vida à natureza”, defendeu Benke Pianco, liderança do povo Ashaninka, no Acre.

Para o Instituto Raoni, entidade que representa mais de três mil indígenas do baixo Xingu, a audiência faz parte de mais uma ação anti-indígena. Em nota divulgada na última quinta-feira (11), a entidade diz saber os reais interesses dos proponentes do debate.

“Nosso futuro depende do nosso território, livre de invasores e de parlamentares com opiniões e atitudes contrárias e que infere aos direitos indígenas. Aproveitamos a oportunidade para informar a todos que SIM, nós produzimos em nossas terras, produzimos nossos alimentos através de nossas roças tradicionais, utilizamos nossos rios para nos deslocar dentro dos nossos territórios e das nossas florestas para obter nossas caças/alimentos, além de realizar coleta de produtos da biodiversidade, como sementes de cumaru, pequi, óleo de copaíba, coleta de remédios tradicionais e de matéria prima para produção de nossos artesanatos tradicionais. E que para isso, não necessitamos destruir nossas riquezas naturais”, descreve a nota.

*Com informações do PCdoB na Câmara.

Imagem: Indígenas são afastados da Câmara com gás de pimenta e bombas – Mídia Ninja.

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