Espinafre com queijo e o crime da Samarco, por Antonio Claret Fernandes

Para Combate Racismo Ambiental

Da Mesa Sofia repara Lu, no auditório de Geologia da UFOP, lotado de trabalhadores do Brasil inteiro. Seu rosto é inconfundível, gravado na mente de Sofia desde a militância no Xingu, nas idas e vindas entre Altamira e Brasil Novo e nas mobilizações de Belo Monte. Há muitas e diferentes bandeiras sindicais, com destaque para a camisa laranja. É certo que as doenças e os acidentes de trabalho, com foco na Samarco, não escolhem esse ou aquele sindicado, mas os trabalhadores escolhem.

Na primeira oportunidade, Sofia deixa a Mesa, onde está em nome do MAB, e vai ao encontro de Lu. As duas se abraçam. Sofia lhe pergunta pela coluna, dolorida até hoje em função de queda durante missão no Pará, com trauma persistente. Lu informa sobre exames sem fim e a convida para almoçar em sua casa. ‘Gosta de espinafre?’, pergunta. À confirmação de Sofia, ela diz que vai pedir ao seu Sobrinho pra buscá-las.

Espinafre é uma erva daninha originária do Centro e Sudoeste da Ásia, o termo vem do árabe Sbinakh. No Brasil, é o nome de planta popular parecida com o ‘verdadeiro’ espinafre, mas de outra família botânica, com muitos benefícios à saúde.

A primeira parte do Seminário por ocasião do Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de trabalho, comemorado em 28 de abril, termina às 12:40 em ponto. Lu liga pro seu Sobrinho e, enquanto ele não chega, leva Sofia para conhecer o Mirante, bem perto da Geologia. Lugar lindo! Dali se avista a antiga Ouro Preto, com suas pedras manchadas de sangue de escravos na exploração de minério e de tantos rebeldes em luta pela liberdade. Do Mirante, Lu vai identificando a cidade parte por parte,  recitando os nomes e apontando com o dedo.  ‘Ali é a Vila onde moro’, diz, quase ao pé do Mirante. Em apenas 10 minutos, pode-se ir da universidade à sua casa por uma escadinha estreita e especialmente íngreme, apelidada de Pitágoras.

Sofia vai dividindo sua atenção entre Lu, feita cicerone, e outros pensamentos que lhe rondam a cabeça. Lembra a Vale, que tira o Rio Doce de seu nome numa espécie de presságio de sua completa destruição. Através dela, o Capital enfia sua garra na UFOP, financia pesquisas, canaliza a estrutura pública pro seu interesse, consegue bons profissionais que, principalmente, lhe vestem a camisa e, de quebra, garante um cala-boca aos que gerem aquela instituição. Não é à toa que a atividade, com gente de todo o Brasil, não tem praticamente ninguém da UFOP.

Outa coisa que incomoda Sofia são os números dos ‘acidentes’ de trabalho e doença laboral. No mundo, a cada 15 segundos morre um trabalhador. No Brasil, os ‘acidentes’ e doenças laborais giram em torno de 700 mil por ano, sendo aproximadamente 3  mil fatais. De cada 10 trabalhadores, 8 são terceirizados. Um operário de Mina geralmente trabalha, no máximo, 15 anos e, quando não morre antes, se aposenta, mas, quase sempre, vive menos de 5 anos do benefício. A fiscalização é extremamente precária, com 7 profissionais apenas para acompanhar 756 barragens de rejeito existentes em Minas Gerais, uma bomba-relógio. Nem o Estado nem os mineiros sabem a quantas andam. Quanto à acumulação de riqueza, nem se fale! A Vale lucra 6,11 bilhões no 1º trimestre de 2016. Minas Gerais é o maior produtor de minério de ferro, que representa 7,5% do PIB brasileiro. Atividade boa para as mineradoras e pro erário do Estado, mas ruim pro povo. Nos mais de 3 mil municípios com essa atividade no Brasil, a população é empobrecida. A renda per capta é alta, mas isso é enganoso, pois é como se uma pessoa tivesse uma temperatura média normal com os pés na geladeira e a cabeça no fogo: literalmente morta!

Olhando a Ouro Preto, ouvindo sua amiga Lu, Sofia vai imaginando que o crime da mineração é histórico na região, tanto quanto aquela cidade. Ou desde quando se descobre a exploração de minério como atividade econômica rendável. Quantos escravos traficados e soterrados ali. Mas esse crime vem se intensificando no último período, apesar de uma sofisticação aparente, e se torna escancarado em Fundão, barragem da Samarco controlada pela Vale e BHP Billiton a qual se rompe no dia 5 de novembro de 2015. Em 2008, foram 28 autuações por negligência. Em 2011, foram 105 infrações de Segurança no Trabalho, cada qual, se consumada, num valor máximo de 7 mil reais, quantia irrisória no mercado minerário, com seus números vultosos. A Constituição tem leis preventivas até boas, que não são cumpridas, mas precisa avançar nas ‘leis de consequência’, que faça a sequela do crime ser cara o suficiente pra não compensar.

‘É o nosso carro!’, exclama Lu, olhando para um Gol preto. Sofia repara e o veículo já está encostando. As duas deixam o Mirante e, enquanto vão caminhando pelo asfalto, Lu comenta: ‘ainda não pude dirigir o carro novo por causa dos nervos inflamados. A mão fica dormente, estou fazendo fisioterapia. De algum modo, sofri também um acidente de trabalho’ – ri.

Sofia, que segue no banco da frente, vai reparando o Campus da UFOP, uma planície  misturada de vegetação, pedras, prédios, carros nos estacionamentos, quase tudo lambuzado da promiscuidade entre privado e público. Mas sua mente está centrada no crime atual da Samarco. Em visita a Barra Longa, ela vê que a lama continua vazando de Fundão e descendo pelos cursos de água. É nítida a diferença entre enchente e o rejeito de minério, que deixa o Carmo  vermelho-tinto por causa do excesso de ferro. Soube, ainda, que 600 operários, trabalhando atualmente em Fundão pra evitar uma tragédia maior, sujeitam-se a condições extremamente precárias, com 14 a 16 horas de trabalho por dia, proibidos de receber visita de seus próprios sindicatos.  Isso é coisa que não se resolve com hora extra. Causa indignação saber que o inconcebível e evitável crime de origem ocupacional, desde as montanhas de Minas até o Atlântico, continue ocorrendo.

Olhando pra Lu, através do retrovisor, Sofia nota que ela continua a mesma, sem tirar nem por, bem aparentada, bem disposta, generosa e firme na sua posição de classe. Apesar do incômodo da coluna, que provoca uma dor nervosa, ela não perde a estribeira. Amante da boa culinária mineira, além do prometido espinafre com queijo ela para no Mercado pra comprar um ‘docinho’, como diz.

Após as ruelas e o sobe-desce de Ouro Preto, boa parte antigos caminhos de tropa, o carro encosta, Sofia desce e, logo que Lu abre a porta da casa, Sofia vai entrando, subindo uma escada comprida que dá acesso à sala. Lu a segue e, mal entram na casa, a chama pra cozinha. O almoço está quase pronto, preparado pela irmã de Lu, que cumprimenta Sofia naquele jeito mineiro, desculpando-se: ‘minha mão está molhada’. Sofia ri e vê os pratos e talheres na mesa, as panelas no fogão – com o fogo aceso -, o queijo num canto e o espinafre já picado, ao lado do fogão.  Lu corre à sala, liga a TV, chama Sofia pra ver o Jornal e some pra cozinha. Sofia fica refletindo no Sofá, coisa de que gosta muito, e, em segundos, ela pensa a mineração, o golpe no Brasil, o mundo.

Chama-lhe a atenção a expressão reproduzida no senso comum de que ‘Minas tem vocação minerária’. O que significa vocação, nesse caso, senão a prerrogativa do império econômico de definir as prioridades e organizar o trabalho? Qual seria a vocação de Minas se o seu destino fosse definido pelos seus 30 mil indígenas restantes, acossados pelas mineradoras e pelo Agronegócio? Qual seria a vocação de Minas no contexto do golpe no Brasil se sua posição fosse definida pelo povo mineiro, sedento de liberdade? Vocação nesse caso, então, não passa de um eufemismo para naturalizar e esconder a ditadura econômica atrelada ao Estado burguês.

Sofia ajeita-se no Sofá e, com aquele clima fresquinho de promessa de chuva, já quase fecha os olhos de sono. Mas persiste na reflexão. Diz-se que ‘se fechar a Mina, Mariana fecha’. Os argumentos mais recorrentes são dos empregos e dos 80% arrecadados das mineradoras. Com isso, até os sindicalistas mais bem intencionados ficam num beco sem saída, pois representam os operários que dependem dos empregos. A própria existência do sindicato depende da mineração. Assim, cada vez que fazem um comentário critico, ronda o espectro do desemprego em massa; após falas exaltadas, o que sobra, ao final, é o ‘volta Samarco’, acoplando-se o adjetivo ‘descente’ à palavra ‘emprego’, o que, só por si, não muda nada na realidade brutal do trabalho. Alguns se arriscam a falar de reabertura da Mina com segurança, compromisso social e soberania. Mas se a Mina se abre amanhã ou até julho ou daqui a 5 anos, sem força popular pras mudanças profundas na estrutura do trabalho e da sociedade, com o agravante do retrocesso democrático no Brasil – com pontes pro futuro que levam ao passado -, os níveis de exploração podem aumentar ainda mais e as condições de trabalho, já precárias, podem piorar. Nenhum sindicato sério quer emprego que gere morte. E precisa fazer um grande malabarismo para lidar com essa contradição, com o risco real de abrir guarda para chantagem das mineradoras.

Há sempre a tentação de se achar que tudo se resolve com o ‘fica ou sai’. É assim no Brasil, é assim em Mariana. Sofia está convicta de que qualquer rio tem mais de duas margens. O raciocínio é simples: a exploração de minério por parte das empresas só faz bem ao povo quando é capaz de emancipá-lo a ponto de viver sem elas. Ou seja: se uma cidade é refém das mineradoras, é porque o povo foi historicamente surrupiado e essa dívida social precisa ser sanada antes…

O sono toma Sofia por completo e seu pensamento fica pela metade. Ela dorme sentada. Quando parece sonhar, ouvindo uma voz distante, vai voltando a si e vê que é Lu a chamá-la: ‘vem pra cozinha, o almoço está pronto’.

Imagem: Reprodução de O Globo

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